Monday, April 22, 2013

A Firma de Mudança (da série Tudo Conto)


                        Maria decidiu certo dia mudar de vida.
                        Escolheu uma cidade bem distante e foi.
Mas não foi assim como quem vai às goiabas, de qualquer jeito, sem preparação. Pelo contrário, ela contratou uma firma, a firma de mudança Nova Vida.
Houve uma entrevista.
- O que a senhora vai querer ser?
- Prefeita custa caro?
- Custa. Mais de um milhão. E é preciso encontrar uma prefeita que deseje abandonar a vida dela, com ou sem marido e filhos, que é preciso também convencer. Custa caro e é trabalhoso.
- O que você tem por 300 mil?
- Temos muitos advogados, gente que pensou que ia ganhar os burros do dinheiro e virou gandula de porta de cadeia, encarregados de pegar as bolas fora. Economistas que pensavam ir dirigir os governos e as multidões “vão pra lá, vem pra cá”, e a construir empresas; muitos, muitos. Administradores mirins que achavam ser gigantes da economia que iriam organizar isso e aquilo, um horror! Engenheiros desempregados, uma tonelada. Dentistas fracassados, médicos derrotados, funcionários públicos insatisfeitos a gente já perdeu a conta.
- Não tão baixo assim.
- A senhora sabe que terá de compensar, né, se a sua nova vida recebia salário maior.
- Como assim?
- Se a pessoa ganha 100 mil por ano e a senhora ganha 80 mil evidentemente ela vai receber 20 mil a menos e isso a senhora terá de pagar anualmente. Aconselhamos poupar. A firma é inflexível nisso.
- É compreensível.
- E há nossos honorários, 10 % tanto da senhora quando da outra parte, há muitas preparações a fazer, adequações, acompanhamento por psicólogos, uma quantidade impressionante de tarefas.
- Vamos precisar eu e ela nos conhecer e assinar os papéis, eu li.
- Com certeza a senhora leu os prospectos e sabe que não é possível mudar para papel de homem (nem vice-versa): a senhora assinará um contrato ao entrar na nova vida.
- Sim, compreendo. Nem quero isso.
- E, depois, se a senhora tem marido e a outra tem também, é preciso que os maridos (e os filhos) aceitem.
- Estou ciente.
- É necessário que os dois grupos se conheçam.
- E se a senhora desejar voltar seria o caso de fazer toda uma negociação contrária e começar tudo de novo, com novos gastos. A outra pode não querer, entende?
- Não tem retorno.
- A senhora leu a caderneta, o livrinho?
- Li, sim, detalhadamente.
- Então, por favor, assine aqui.

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