Monday, April 22, 2013

Aquecimento Global (da série Tudo Conto)


Os cientistas estavam preocupados.
Tudo indicava estar a temperatura subindo muito, vários graus, com o derretimento das geleiras e exposição de largas porções da Tiar.
A glaciação, iniciada mais de 90 milans antes da queda da Grande Nave, dava visíveis mostras de estar recuando. Os mares subiam rapidamente, mais de seis poles por ano. As previsões eram de choveria fortemente mais 600 ans além dos 400 até então. Já sabíamos que com um milan de chuvas os mares fatalmente subiriam mais de seis mil poles. Tínhamos conhecimento de que porções enormes das costas seriam inundadas, culturas teriam de ser movidas para dentro dos continentes muitas dezenas de kum, agora mesmo e sem qualquer garantia, mas avançar na visão é muito mais terrível que ter apenas compreensão teórica. Quanto trabalho perdido, tantas cidades desaparecidas, tantas vidas talvez, se não se socorresse a tempo! Muitos não querem sair, preferem morrer.
As máquinas estão a postos em todo o mundo, trabalhando furiosamente. Muito já foi feito em quatro segures, mas muito mais terá de ser realizado nos seis seguintes. Os cálculos não deixam margem à dúvida.
A Grande Nave, estacionada sobre os rochedos marinhos no Trópico Superior, viu a água subindo, com sua enorme massa cobrindo porções cada vez maiores das bordas, fazendo recuar em círculos concêntricos toda gente das cidades costeiras. Embora grande, mais de 400 kuns de diâmetro, fatalmente será coberta pelas águas, pois seu topo se situará, ao final do processo, muitos nits abaixo de onde presumidamente ficará a lâmina d’água oceânica. E quando toda aquela água cobrir a Grande Nave Atlante o peso extraordinário acima dela pressionará os picos abaixo dela, esmagando-os e fazendo-a rolar para dentro do oceano.
Os senhores continuavam adormecidos, mesmo após nove milans. Inquestionavelmente mergulharão nas profundezas e nada se poderá fazer. Os robôs, por si sós, sem auxílio de seus senhores, não poderão tomar providências porque não tem tanta autonomia: no máximo podem e poderão, como fizeram, desenvolver os nativos de toda parte, cedendo-lhes parte da avançada tecnociência na expectativa de um dia poderem cobrar auxílio. Já viveram por nove milans depois da derrubada da Grande Nave e continuarão operando nos bastidores por 20 ou 30 milans se necessário for até a humanidade ter adquirido maturidade para proceder ao resgate da Grande Nave.
De pronto, estamos levando a cultura Atlante segundo a Rosa dos Ventos para o norte, o sul, o leste e o oeste desde dois segur atrás. O grande continente localizado a oeste parece prometedor, com as grandes montanhas na extremidade oeste podendo comportar muitos esconderijos. Mesmo se as vagas gigantescas, geradas pelo calor muito maior, provocarem tufões e furacões, destruindo assim milhares de cidades, algo se poderá fazer, preservando parte de nossa cultura central nas altas montanhas do grande continente do leste ou na terra central ou nas montanhas do sul.
Os barcos, ainda que reforçados, não suportarão o embate na hora derradeira e pouco se poderá levar da Grande Nave, até porque os robôs não deixarão. Mergulhará mesmo tudo no fundo do mar. Meia dúzia de cidades será criada ao fim das chuvas, depois do dilúvio de águas, onde os navios pararem, o mais alto possível, espero. Espalharemos ao máximo. Os robôs nos negarão sua tecnociência e esta de que tomamos conhecimento fatalmente declinará nas mãos de nossos descendentes, de modo que devemos deixar sinais, conforme os planos. Só com o que sabemos é impossível preservar a cultura.
O poder que derrubou a Grande Nave não deixará os senhores acordarem até estar apaziguado, conforme nos foi dito. As esperanças mínguam, senhores e senhoras. Em algumas centenas de ans a Grande Nave mergulhará na escuridão. Talvez o poder superior tenha precipitado o fim dos gelos visando isso, não sabemos. Seguramente vamos irradiar, mas sem a tutela dos robôs é inevitável o decaimento. Sombras persistirão, sem dúvida, mas serão só sombras dessa cultura de 90 segures. Por mais que deixemos, por mais cuidadosos que sejamos, 200 ou 300 segures são demais. Eles dizem que mais provavelmente bastará metade disso, 100 ou 150 segures, mas não sejamos otimistas, todos estaremos mortos, não haverá qualquer lembrança de nós. Nossa última esperança reside nas grandes cavernas e nas altas montanhas, aonde as águas não chegarão, antes de produzirem o novo desenho das bordas continentais.
Por mais que choremos, esse é o cenário. Sinto lhes dizer.
Vale lembrar o que significaram esses 90 segur desde a queda.
O quanto nosso mundo evoluiu, desde quando não passávamos de gente abrutalhada lavrando armas de pedra.
E pensar que o peso da água, quando se der o desequilíbrio entre a massa acima da Grande Nave e sustentação abaixo, fará tudo entrar em colapso em questão de daas, raaras, talvez. Um amanhecer de Sala, um anoitecer e será o fim. É muito triste, senhoras e senhores, é muito triste. Ver nosso mundo regredir e mergulhar novamente na escuridão, é muito triste. Contudo, não temos o direito de chorar, devemos levantar nossas cabeças e prosseguir, tal como nos ensinaram os robôs, na esperança de que um dia o grande poder esteja pacificado e a Grande Nave possa ser reerguida. O anel de fogo do grande poder não permitirá o despertar dos senhores, eles continuarão congelados e dormindo por longos milans. São coisas grandes demais para nos preocuparmos. E, de qualquer modo, nos dizem os robôs, a Nave Mundo está lá fora vigilante.
Quanto aos robôs, alguns irão mergulhar no oceano junto com os senhores, outros acompanharão a humanidade, duradouros como são, caminhando entre a gente de volta à ignorância. Homens eternos, eles parecerão.
O que há mais a dizer nesta reunião nossa?
Para poupar o povo das dores maiores do conhecimento pouco lhes podemos dizer. Espero que os senhores e as senhoras sejam felizes em suas missões. Encontrem boas cavernas, embalem os objetos com todo cuidado e com o máximo de proteção, não sabemos quantos milans eles deverão enfrentar. Vedem-nos completamente, enterrem-nos bem fundo.
Confiança e fé no reconhecimento, no renascimento, é o que peço.

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