Wednesday, July 13, 2016


Gnus não Rezam pelos Mortos

 

O enorme bando de gnus estava pastando calmamente à beira da lagoa, com as fêmeas mais retiradas fazendo algo de útil tratando das crianças e os machos se pavoneando na frente, o chefe à frente de todos fingindo que não sabia a importância que tinha e ficava lembrando o tempo todo através da imprensa paga, quando ele avistou o predador. Estacou no mesmo da hora, como dizem lá em Linhares. Ficou paradinho, paradinho, nem daria para ver as pernas tremerem se não se chegasse pertinho.

Pelo canto da boca assobiou baixinho para o vice chefe, situado um pouco além, justamente esperando alguma oportunidade de bajular. O vice veio trotando duro, o idiota, querendo se aparecer para os de mais baixa hierarquia, mostrar quem era o líder dos bajuladores, dos puxa-saco de chefe, o campeão.

MAIS OU MENOS ESSA TURMA AÍ, PARECE GENTE, TEM CHIFRE E TUDO

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VICE PENTELHO (falando alto e chamando pelo primeiro nome, como é comum no Brasil) – que é, Mário?

MÁRIO (furioso, ainda pelo canto da boca) – cale-se, seu idiota, chega aqui.

SEU IDIOTA (murchinho) – que é, chefe?

MÁRIO – encoste aqui, Clarimal (era até melhor falar SEU IDIOTA, ele gostava de Claro, quando o chefe falava assim as coisas não iam bem, ele murchou ainda mais).

CLARIMAL (bem baixinho) – que é, chefe?

MÁRIO – não se afobe, olhe lá, predador (indicou com o queixo).

Clarimal olhou, quase teve um troço, quase desmaiou, as pernas dele batiam uma na outra de fazer barulho alto.

MÁRIO – controle-se, sua besta, bata menos as pernas.

CLARIMAL – che-che-che-fe-fe.

MÁRIO – não faça bagunça, primeiro as fêmeas para cuidar das crianças, depois as crianças para crescerem e cuidarem da gente.

CLARIMAL – e os idiotas ali? (Apontou com o queixo, varrendo da esquerda para a direita, os da esquerda eram os mais idiotas – enfim, eram todos).

MÁRIO – deixa pra depois. Avisa primeiro meus manos, depois os seus, depois os outros: as facilidades da lei para os nossos amigos, a lei para os indiferentes e o rigor da lei para os inimigos, você sabe quem, todos aqueles que nos desafiaram e não votaram em nossas propostas de enriquecimento ilícito no Congresso.

CLARIMAL – certo, chefe. Bem devagar, muita calma nessa hora.

MÁRIO – sim. Vem cá, o Alfredo já sarou da perna?

CLARIMAL – não, ainda tá mancando, dificuldade para andar.

MÁRIO – tá bom, você vai ter de convencê-lo a ficar na retaguarda para defender a tribo neste momento de extrema necessidade, patriotismo, você sabe, toda aquela lorotada, enfeita, que pra isso você é bom. Ele é o escudo da sobrevivência da tribo, você sabe, aquelas coisas de defender contra o eixo do mal, etc., aquelas bobagens do traidor Blair (ele queria tirar a prima Bete do trono dela lá na gnulândia inglesa), o capacho do Bush.

CLARIMAL – tá bem, chefe.

MÁRIO – tem mais alguém que possa nos valer neste momento de precisão?

CLARIMAL – tem a Vilma, que falou mal de você, tem o Nando, que roubou uma de suas mulheres. Tem o Lago, metido a nadador, tem uns 20.

MÁRIO (todo satisfeito) – certo, certo, você tem de coloca-los lá na rabeira e entre eles e a tribo uma barreira para evitar que eles tentem fugir do compromisso, tá bem?

Serra, sábado, 09 de janeiro de 2016.

GAVA.

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