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Monday, June 10, 2013

Nós na Festa (da série Tudo Conto)


LISTA DE CONVIDADOS




- Você viu se nosso nome tai?
- Claro, olha ali, você e eu.
- Olha lá, até o Nó Górdio veio.
- Ele andou mal depois que Alexandre o esfaqueou, né?
- Foi mesmo, mas ele se recuperou, já tem bastante tempo.
- Quanto Nó tem aqui, né?
- É sim, esse país tá coalhado de Nó, uma enrolação dos diabos. Tem Nó no Executivo aos montes, no Judiciário, no Legislativo, nas indústrias e na economia em geral, a parentada está em toda parte.
O garçom vai passando com salgadinhos, eles pegam logo um monte, bem como dois copos de cerveja.
- Nem se eles quisessem conseguiriam acabar com Nós todos.
- É, tamos abafando!
- Isso sem falar na nobreza, os Nós de Gravata.
- Tem tanto Nó no Brasil que alguns de Nós foram para Boston.
- Aliás, mudaram os nomes: Governador Valadares agora se chama New Boston e Boston se chama Novo Valadares. Vamos contaminar os Estados Unidos. Ele vai se chamar Estados Unidos do Nóste.
Rindo, o Nó aponta.
- Olha ali o Nó Cego, vamos tirar sarro dele.
- Que isso, cara, ele é cego, deixa o infeliz em paz. Vamos implicar com o Nó de Marinheiro, ele tá n’água conosco.
Caminham pra lá, mas nisso o Nó de Marinheiro, pressentindo o perigo, muda de lugar e vai conversar com outros parentes.
- Caralho, ele sacou.
- Quem país esse nosso: Nó querendo sacanear outro Nó.
- É lindo, né?
- É, sim, e o Espírito Santo? Cada vez melhor, é uma beleza. Ouvi dizer que tem muita família pobre dando Nó.
- Também, também, mas não é só isso, não, vai desde os miseráveis até os super-ricos, é uma beleza de estado.
- Você acha que vai melhorar?
- Claro, cada vez mais Nó, nossa família tá constantemente crescendo.
- Da Vila Rubim à Mata da Praia, da Fonte Grande à Ilha do Boi, pra onde você olha tem Nó, é a capital do estado de Nós.
- É Nós na Fita, então vamos festejar.

Monday, April 22, 2013

A Festa do Milhão (da série Tudo Conto)



Os ricos combinaram de dar festa sempre que qualquer pessoa atingisse seu primeiro milhão em dólares. O pretendente, é lógico, se preparava e alugava um lugar muito bom. O jantar, em si, era com grande rigor restrito a 500 pessoas, milionários homens e milionárias mulheres, e podia ser gasto o equivalente a 100 dólares para cada um, portanto, 50 mil no total, 5 % da riqueza já contando os familiares. Não era restrito a faixa de riqueza, podia vir qualquer um, mesmo os muitos ricos ou de muito longe, porque era tirado por sorteio.
O novo-rico se esmerava.
Contratava uma banda, caprichava nos canapés (porque de rico não são salgadinhos, são canapés), firmava a elegância e lá ia, ele e a família, se família houvesse. Os contatos eram importantes. Como dizem, não é o que você tem, mas a sua cadernetinha. Políticos só eram convidados se fizessem parte do clube e geralmente faziam, porque logo, logo tratavam de tirar dinheiro dos outros.
O novo-rico (ou a novo-rica) entrava todo emproado, pisando duro, mal sabendo tratar-se de uma iniciação, pois o mais rico da geo-história, Rockefeller, passou os 300 bilhões de dólares de hoje, quer dizer, 300.000 daquele primeiro milhão. Era um “cala a boca” elegante e pago pelo otário. As pessoas riam à boca miúda. E como a festa só era dada ao se atingir o primeiro milhão e da primeira vez, ninguém ficava sabendo, assim como também não vazava para a imprensa, pois ela nunca era convidada, como no Grupo Bilderberg.
Assim, os ricos tinham um punhado de festas anuais gratuitamente e ficavam conhecendo novos compradores, além de poderem conversar uns com os outros. As mulheres tricotavam as vidas, as crianças brincavam em terreno saudável e tudo por conta do otário da vez. Nas vezes seguintes, se fosse convidado, ele estaria junto dos que riam.
Não é por nada que rico ri à toa, ri à toda, é que o mundo é realmente engraçado.