Monday, June 10, 2013

Férias de Corpo (da série Tudo Conto)

- Como foram suas férias?
- Legal demais, peguei um cara saradão, e ainda por cima galã e me dei bem pra caramba, tracei umas 18 em 30 dias. O camaradinha é rico pra caramba, me fiz.
- E ele?
- Bem, tenho 120 kg e embora não seja pobre não sou rico. Mas, quer saber, depois das destrocas conversamos e ele ainda me agradeceu.
- Difícil de acreditar.
- Também pra mim foi difícil. Fazer o quê, tem gosto pra tudo. Falou das vantagens da minha vida, de poder comer sem qualquer responsabilidade, dormir até tarde, beber até cair.
- Como, sem responsabilidade? E as operações de ponte de safena e braquioradiais que vocês fez?
- Ele chamou de “experiências”. Tem doido pra tudo. Até gostou de tomar os remédios, que merda. Verifiquei se ele tinha seguido direitinho as horas de tomar e seguiu sim, você acredita?
- Conta mais, conta mais... Faturou, hem?
- Bem, demora tempo contar tudo, eu fiz um relato senão ninguém iria acreditar. Vou enviar pra você, dia a dia, só troquei os nomes, claro, você entende. Saradão e não era boiola. ME DEI BEM DEMAIS.
- Claro, tá na cara, também troco os nomes. Já peguei um ministro americano, as cagadas que ele fazia! Era de arrepiar. Eu tinha todas as memórias dele junto com minha vontade transferida, mas sem dúvida alguma os “grandes” fazem tanta merda que é difícil crer. Tem toda uma linha, tenho listado todas essas trapalhadas deles país por país, desde séculos atrás, para entender não propriamente a política de ocultamento deles, enquanto indivíduos, mas a razão de os governos e o capitalismo permitirem e até estimularem com a indiferença e a impunidade.
- Voltando ao assunto, que invenção, hem, o transferidor?
                        - É mesmo.                                                                             
- E que tenham deixado aplicar é mais incrível ainda: trocar com um presidiário é perigoso, só tem havido algumas experiências-teste com sociólogos idiotas e psicólogos mais idiotas ainda, antropólogos, gente desocupada assim, e do outro lado acompanhamento de perto pelos policiais, só com presidiários-modelos, mas mesmo assim, é um risco.
- Sem falar nas vezes em que a gente troca com mulher, é desconfortável demais.
- Andei lendo incorporações que elas descrevem, de trocarem com homens, o desconforto e a sujeira, cuspir na rua, ficar cheio de pelos, mijar fora da borda dos vasos, elas sentem mais horror do que nós.
- Você vai ao estádio domingo?
- Sei não, a emoção de estar lá é grande, é inigualável xingar o juiz e os bandeirinhas, extravasar, mas acho que vou ficar com o telão 3D.

Fazendo Hora (da série Tudo Conto)

A Oficina do Tempo vivia sobrecarregada, operando dia e noite, nos 365,25 dias do ano. Não parava para nada, trabalhando em turnos, de modo a atender toda a gente que sempre precisava de tempo praisso, tempo praquilo. Praquilo, então, eles reclamavam o tempo todo, mas na realidade usavam pouco todo tempo que tinham. Se você prestasse atenção veria que eles subaproveitavam o tempo. O que mais faziam era reclamar.
Tempo era um produto universal, tinha em toda parte.
Era o mesmo em todo lugar, porque a OT só produzia tempo padronizado, cada hora levando sempre 60 minutos, dentro dos quais estavam lá os 60 segundos. Uma perfeição de fomentar a confiança de haver algo mais por trás. Nunca falhava, você abria uma hora e lá estavam os minutos em pacotinhos: 60. Sem tirar nem por.
Então, era isso: para cúmulo da contradição elas reclamavam de não ter tempo e quando tinham gastavam em bobagens, bestamente.
Por vezes você podia ver as pessoas entregando o tempo delas por ninharias, uns trocados aqui e outros acolá, principalmente os miseráveis e os pobres, pois os ricos e os médio-altos sabiam valorizar e não entregavam o tempo deles senão por altas quantias.
Junto com o tempo as pessoas recebiam ao nascer um veículo chamado Vida, que com algum cuidado podia durar muito e sem cuidado fatalmente duraria pouco. Pois o tempo de Vida não é que era desperdiçado? Eles abusavam da Vida. Fique pasmado você! Inacreditável, não é? Pois garanto que era assim mesmo.
Ninguém tinha lhes contado quanto custara a i Deus-Natureza produzir o tempo e a Vida, então as pessoas desperdiçavam como filhos pródigos. Alguns até acreditavam que, uma vez esgotado esse tempo seria feito download de outro tempo chamado “reenganação”: por algum privilégio sotúrnico aquele corpomente em especial, seria preservado em suas memórias, inteligência e controle para depois surgir novamente – um pacote muito maior de adulto reintroduzido no cérebro do feto. Pode ser, por quê não?
Por exemplo, as pessoas tinham de viajar, mas não aproveitavam o tempo de vida para ler. Só aí já eram horas e horas jogadas no lixo todos os dias. Sábados e domingos em que não trabalhavam não usavam o seu tempo conversando por amizade, não, senhor, de jeito nenhum.
Tinham-se na conta de racionais, mas as besteiras feitas com seu tempo precioso era de arrepiar! Bem disse Jesus: “é mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha que um rico entrar no reino do Céu”. De fato, era assim mesmo: mesmo o mais pobre deles era rico de tempo, mas não sabia usar com parcimônia para ser feliz. Sempre correndo de um lado para outro como baratas tontas. Dava dó de ver: sempre reclamando da falta de tempo, quando recebiam a cada dia sem fazer o menor esforço 24 horas (cada qual com 60 minutos, lembrem-se).
- Ah, minha filha, não tenho tempo - reclamavam, já no fim daquela estrada mais comprida ou mais curta chamada Existência.
Se você lhes dissesse “mas você gastou seu tempo todo em besteiras” ainda ficavam bravos à bessa.
Era uma tragédia.
Com 50 ou 60 anos de rodagem na estrada da Existência já teriam acumulado mais de 430 mil ou 520 mil horas, mas mesmo assim não estavam satisfeitos. Eu, se não os amasse, começaria a reparar nos enormes desatinos, nos desperdícios, nos abusos no uso do tempo. Contudo, me calo em nome da não-imputação a quem se ama.
Corriam a grandes velocidades na Estrada da Existência, tentando encurtar os tempos em vez de alargá-los. Alguns guardas de trânsito os preveniram, como Buda, Maomé, Jesus, mas eles não davam atenção: pouco depois da preleção já começavam de novo a gastar o tempo em futilidades, correndo como desvairados, colocando em perigo o Veículo da Vida na Estrada da Existência, onde às vezes trombavam e morriam. Que pena!
E a Oficina do Tempo despejando ano após ano as horas.
Bilhões já eram atendidos todos os dias.
Sendo tantos, seria de esperar haver contentamento. Uns chegavam perto das 500 mil horas, meio milhão, mas essa riqueza não lhes bastava. Outros, os ricos e médio-altos, que roubavam tempo dos outros, os ladrões do tempo alheio, esses viviam melhor, mas mesmo assim com todos aqueles milhões de horas ainda não eram felizes.
A que atribuir isso?
Sinto dizer, mas só posso pensar em fragilidade mental.
Acho que os materiais que a Natureza entregou a Deus para a construção da casa não eram bons, sei lá. Ou talvez Deus não soubesse trabalhar, quem sou eu pra dizer? Ou talvez, mais certamente, fosse o livre-arbítrio.

Escola de Motos (da série Tudo Conto)

Era uma escola muito bonita, com os lugares de estacionamento das motos legais, com grama do lado, com as baias para cada uma.
A escola em si era bem grande, com salas e mais salas de aula, um mundo, com rampas, com tudo que tem direito, com instrutores bacanas e bem apanhados. A Harley Davidson estava lá, antiga, mas bonitaça, toda inteiraça depois do check-up. Fazia presença, de impor respeito.
Tinha as porqueirazinhas, novinhas ainda pirralhas, nem davam pro gasto, ciclomotores.
Tinha as estrangeiras, 750, imponentes.
O professor chegou à porta e falou grosso e ríspido, aquele vozeirão de deixar a gente sem graça, toda lubrificada.
PROFESSOR – para quem não me conhece sou O Professor e exijo respeito.
Quase derreti, ai.
PROFESSOR – Todo mundo de frente pra cá, vamos parar aí com a falação, todo mundo de olho no quadro negro.
HARLEY (como se fosse alguma mocinha charmosa) – Eu também, professor?
PROFESSOR – a senhora também, não tem regalia aqui pra ninguém, não. A senhora pode ser famosa, mas direção defensiva faz bem a todas, de todas as idades e potências. (ENFEZADO, MUITO SÉRIO, CARRANCUDO MESMO) – turma, é para andar em corredor de carros?
TURMA (a todo pulmão, querendo agradar o mestre) – não, fessô.
PROFESSOR (rindo) – é para fazer zig-zag na pista?
TURMA (rindo também) – não, fessô.
PROFESSOR (feliz da aceitação) – é para andar rápido onde tem pedregulhos?
DONA HONDA (sôfrega) – não, fessôzinho!
PROFESSOR (cortando) – dona Honda, a senhora que é maior e mais poderosa, dê exemplo pras mocinhas aqui presente, não se antecipe, se faz favor. Perguntei pra toda a turma. E aí, turma?
TURMA (rindo, ganindo, se divertindo com o atrapalhamento da japonesa) – NÃO, FESSÔ!
DONA HONDA (sem graça) – foi a Yamaha que me cutucou.
PROFESSOR – não interessa, toda a turma tem de participar. É para dar rabeada? Já que a senhora gosta tanto de se projetar, dona Honda, diga.
DONA HONDA (cabeça baixa) – não, professor, rabear nunca, se o patrão insistir, desligar o motor.
PROFRESSOR – muito bem, dona Honda. E a senhora pare de cutucá-la, dona Yamaha, senão mando para a oficina do diretor.
DONA YAMAHA – isso não, Professor.
PROFESSOR – e as brasileirinhas lá dos fundos, senhoritas Agrale, Cagiva, Zanella? O que tem pra dizer?
AS TRÊS (em uníssono) – a gente não tem muito a dizer, não, Professor, estamos mais aprendendo. Estamos prestando atenção tentando dar o melhor de nós (parecia tudo ensaiado).
PROFESSOR – então, gente, CORREDOR DE CARROS, NUNCA. Andar na chuva só com muito cuidado. Nunca dar tudo de si, para evitar dar aos donos excesso de expectativas. Nas competições o máximo de cautela e é só para as experimentadas. Deitar nas curvas com os patrões só com o MÁXIMO de prudência, com proteção. Alguma pergunta a mais, por hoje?
A TURMA TODA – não, fessô.
PROFESSOR – certo, amanhã vamos falar de cilindradas.
VIXON (francesa, toda melindrosa) – ai, professor, isso morde (ri)? Tô brincando, fessô.
FERRARI (toda coquete, jogando charme) – vamos dar uma festa lá em casa hoje, quer ir professor?
TODAS – vai professor. (FAZENDO CORO) Vai, vai, vai.
PROFESSOR – tá bom. Vou com tudo, tá bem? Vou levar meus amigos, vamos entrar arrebentando.
TODAS – ui.

Enquanto isso, em Floresta Densa (da série Tudo Conto)

Em Floresta Densa há um lugar chamado Mata Úmida, onde certa comunidade humana vive e prospera na ignorância de poderes maiores.
Nesse dia em especial os mateiros se reuniram num bar da moda.
Eram garotos e moças discutindo o universo, como acontece com quase todos aos 15, 16, 17, 18 anos. Quatro estão à mesa, um chega.
- Digam aí, faces.
- Podiacreditar, irmão idoso.
- Na apropriada, irmãozinho.
- Tudo de adequado, criancinha.
- Que tem realizado?
Essas coisas que diz a garotada de agora.
- Tava com meu tio, ele ficou me contando de quando foi abduzido.
- Abduzido.
- É, idoso. Doideira de parente, né?
- Como assim?
- Ele diz que quando se aprofundou muito além de Mata Úmida, um carro o pegou.
- Carro? Quem é carro?
- Não é quem, é o quê. É um objeto corredor não identificado, OCNI. Ele diz que tinha gente, parecida com nós, mas isso é impossível, não é? O que existiria além de Mata Úmida? Nossos pesquisadores não dizem não existir vida além-Mata?
- Pois é, hermano.
- Peraí, grande irmão, um tio-avô da minha mãe contava um história parecida, de uns 60 anos atrás.
- Que é tal, antigo?
- É sim, estou dizendo, irmão do pai da minha mãe.
- Eu sei o que é tio-avô, tô falando de outro capturado.
- Foi, sim, ele disse que o ocupante (que chamou de automovente o veículo; não tinha cavalo nem nada, por aí se vê como é impossível). Disse, pasme, que o semovente fazia 150 km por hora, quem vai acreditar nisso, quando nossos cavalos vão a 40 km/h?
- Ha, Ha, Ha, tem gente que fala de vida além da Mata, morro de rir.
- Tem doido pra tudo.
- Não tem aquele que falou da pluralidade das matas?
- Como era mesmo o nome dele?
- Não sei, mas foi queimado na fogueira, procê ver e não tentar nada parecido, porcão.
- Esse seu tio é pancada?
- Não, não tomou sol na cabeça, nem bateu com a moleira quando era criança.
- Rapaz, vê uma birra, se demorar eu espero, se demorar muito vamos querer logo quatro.
Todos riem.
O mais velho dos cinco, que já está na faculdade de Mata Dentro, baixa a voz e fala em surdina.
- Eu soube que certos cientistas divergentes falam em vida além-Mata e estão vivíssimos. Alguns livros admitem que pode haver, sim, vida além-Mata. Os livros do falecido Carlos Sagaz dizem isso, de outro modo. Vocês leram Relação? Fizeram até um filme muito ruim com a Jorie Faster.
 - Não, será verdade?
- Esperma!  Leia o livro!
- Pessoal, mas isso é um escândalo, o tempo todo nossos pais e mães nos dizendo que não.
- Alguém de vocês já foi capturado?
- Eu, não.
- Também não.
- Nem eu.
- Bem... sabe esse meu tio? Eu tava com ele.
- Tava!?
- Tava, e é verdade mesmo.
- Você que diz.
- Rapaz, e as frituras?
- Esse rapaz do bar deixa muito a desejar.
- Como é que poderia ter surgido vida em dois lugares diferentes?
- É, pois é, como teria surgido vida (e, principalmente, vida igual) em dois lugares, em Floresta Densa e fora daqui?
- Sei, lá, esperma!, os caminhos do Divino são insondáveis.
- E que são essas coisas que passam no céu?
- Dizem que são viões.
- Aviões.
- O quê?
- Aviões, você falou errado.
- Pois, é, segundo o sabe-tudo aqui, aviões? O que são essas coisas brilhantes?
- Sei lá, uns dizem que são meteoritos.
- Mas todo dia nas mesmas horas?
- Os caminhos do Majestoso são insondáveis.
- Você já disse isso e isso não explica nada, apenas recusa o debate.
- Isso tá ficando pelando, rapaz, mais duas. Quem vai querer uma casta? Rapaz, vê quatro aí, da branquinha. Alguém controle a conta.

Duas Cabeças Pensam Melhor Que Uma (da série Tudo Conto)

Espreguiça, acorda.
- Uau, que sono bom, muito reparador.
- Demorou pra acordar.
- Tá reclamando do quê?
- Você dorme muito.
- Eu???
- É, você mesmo.
- Você reclama demais.
- Como assim, reclama?
- Reclama, reclama, reclama, é isso.
- Claro que tenho de reclamar, você dorme demais.
- Você que dorme de menos. Que hora você foi dormir?
- Às 22.
- Tá vendo? Tava passando um filme ótimo no TV.
- Que hora VOCÊ foi dormir?
- Às 2, 2:30, sei lá.
- Tá vendo, é o que eu disse, você dorme demais, passa das 10, perdemos o melhor da feira.
- Você podia ter ido sozinho.
- Como assim? Nada feito, somos irmãos, não sou seu escravo, você tem de fazer força também.
- Pôrra, assim não dá, essas cobranças acabam comigo.
- SE você acha que eu vou te sustentar e fazer tudo, tá muito enganado.
- Me sustentar??? Só porque você faz uma ou outra comprinha? E todas as vezes que eu te arrastei pra pegar mulher? Você só vê o que VOCÊ faz, quando sou eu que faço você não leva em conta, né? E quando eu tenho de te arrastar pra tomar vacina? E pra ir ao cinema? Você só quer ficar em casa lendo, lendo, lendo, é um nerd, é um merda, quer saber?
- Acho engraçado, você.
- Ah, é, por quê?
- É, é sim, é sim. Mamãe me colocou grudado em você, você é um chato de galocha, é um ignorante, uma besta quadrada, só sendo irmão mesmo pra aguentar. Puta que o pariu.
- Não fala assim de mamãe...
- É lógico que eu não a estava xingando.
- Você nem sabe xingar, é uma gracinha, as pessoas falam comigo, riem de você pelas costas.
- Quem?
- Não vou dizer, são meus amigos.
- Seus amigos??? Há, rio dessas amizades, eles só estão com você porque paga, seu otário.
- Nada feito, nada feito, tenho amigos de verdade, amigos de longa data. É claro que há um punhado que só chega para beber, tá certo, mas é divertido assim mesmo. E você, sua lesma, leva livro pra bar! É de dobrar de rir. As cobrinhas acham estranho eu sair com você, humanimal.
- Não apela! A coisa vai ficar feia pro teu lado.
- Ah, é, vem então, se você é cobra...

E a coisa foi num crescendo terrível, as duas cabeças da cobra se engalfinhando e cravando os dentinhos uma na outra.

Dr. Jekyll e Mr. Hyde (da série Tudo Conto)

*De Robert Louis Stevenson (1850 – 1894).


Como era americana naturalizada, era doutor e não doutora.
Dr. Jekyll, a mãe e o pai se orgulhavam muito e falavam pra todo mundo, elevando-a às alturas, como se não existissem milhares e milhares de doutores, centenas de milhares no mundo, que mundo complexo era esse, meu Deus.
Era besteira, claro, orgulho bobo de pai e mãe, corujices, tá na cara, coisas do interior, mas que dava uma satisfação danada lá isso dava. Vinte e tantos anos para chegar ao final da residência médica no Brasil, metrado, doutorado, adaptação às exigências americanas, o apreciado Mount Sinai Hospital, pesquisa biomédica, não era qualquer um, não.
E agora, isso.
Que vergonha, cinco anos e meio sem conseguir resultados. O FDA jamais aprovaria sem os testes em humanos, depois dos protocolos de biossegurança e não havia um filho da puta que se prontificasse, nem pagando, nem oferecendo curas fantásticas das células-tronco, as novidades de regeneração. Nem um corno, como se dizia no Brasil.
Pôrra, assim não dá.
Só porque tinha progesterona, necas de pitibiribas. Altas doses, tá certo, mas era da fórmula. Os homens, claro, não queriam desenvolver características secundárias. As mulheres tinham receios do ácido araquidônico, 20:4(ω-6), do decaimento ao eicosanoide, puta merda, que aí é que estava a beleza da coisa, controle das inflamações no crescimento acelerado – elas tinham medo de crescerem além da altura que tinham. Quem foi falar essa merda? Quem deixou vazar? Os inimigos de suas pesquisas eram muitos.
Ela decidiu aplicar em si mesma e retratar os efeitos.
Nesse dia, por azar da coisa toda, veio uma carga mal rotulada de testosterona altamente concentrada. Sem saber ela aplicou a injeção e foi dormir.
Na madrugada sentiu uma vontade inacreditável de urinar, eis um efeito colateral, anotar.
Foi, sentou-se no vaso, baixou a calcinha, o xixi saiu para cima, passou da borda do vaso, ó merda. Quase caiu para trás. Se não houvesse a tampa do vaso e a caixa de descarga teria chocado com a parede, puta merda, um piru. Bom, ela conhecia, conhecia muitos na verdade, demais até, mas nunca seu.
Essa não, que monstruosidade é essa?
Acendeu a luz.
Outro choque.
Tinha virado homem, com pelo no corpo todo, um horror, ó Jesus, que cagada que eu fiz? Tirou a roupa toda: pelos nas axilas, pelos nas pernas, pelos de menos na cabeça, barba, pelos na bunda e (pasme!) saco, escroto, vê se pode. Um monstro, com gogó e tudo. Os peitos tinham sumido, meus lindos peitinhos naturais, nem eram postiços, nada de silicone, tudo natural, ó Deus.
Um monstro dos pés à cabeça.
Músculos.
O anguloso masculino.
Ela pensou: é bom para cobiçar, mas ser não é bom, não. Cruzes. Ave Maria, minha mãe, me salve.
E minhas nádegas maravilhosas que os homens reparam, figindo que não estão olhando, onde foram parar? E essa ereção, ai, ai, ai. O que é isso, quando vai terminar?
Um monstro, sem dúvida nenhuma um monstro e fedendo ainda por cima, nunca tinha reparado que fedia tanto.
E assim ela passou as horas seguintes sem saber o que fazer.
Deu oito horas, era preciso se preparar para o trabalho, não dava pra ir, tinha de dar desculpa, ligou.
- Dona Georgia?
- Quem tá falando?
- Doutor Jekill.
- Que voz grossa.
- É que estou rouca, com inflamação na garganta, não vai dar para aparecer, a senhora fala com o pessoal daí? Desmarque minhas consultas, vou ver se amanhã estarei melhor.
Ela morava perto do Central Park, Parque Central de Nova Iorque. É preciso sair, mas com que nome? Danação. Ficou pensativa na janela, viu um homem esbravejando num caixote no Central Park, lembrou-se do Hyde Park, decidiu-se por Mr. Hyde.
Foi saindo, deu de cara com a Rebecca, a nojenta.
- Quem é você?
- Mr. Hyde.
- Cadê a Jekill?
- Tá com um problema.
- O que você tá fazendo aí?
- Pra quê tanta pergunta (e foi embora)?
E a outra, pensando: “filha da puta, esse cara tá comendo ela, ela fica escondendo”.
Hyde passeou, comeu, passeou de novo, foi ao cinema, não sabia como resolver a vida.
Voltou, ficou acordada até as três, dormiu, acordou quase oito, foi ao banheiro, tinha voltado ao que era, exceto que, para constrangimento geral, vivia coçando o saco e peidava pra chuchu.
Bom, uma solução tinha achado, mas não era o que queria. O que tinha dado errado? Foi buscando até que achou, mas o quê fazer de tal fórmula, fora as lésbicas quem vai querer isso?

Diálogo Interplanetário (da série Tudo Conto)

- Psiu, ei Marte.
Silêncio.
- Ô, Marte.
Bufa, resmunga. Irritado.
- Quiéé?
- Marte, cê tá acordado?
- Agora tô, né? O que é?
- Tô com umas coceiras aqui.
- São essas criaturinhas que você criou. Criou sarna é prá se coçar.
- Não fala assim!
- Falo sim. Se não quer que eu fale, vá conversar com Vênus.
- Ela é muito esquentada.
- E eu com isso?
- Poxa, não seja assim. Você é muito frio.
- Sô, né? Porque você rejeitou minhas brincadeiras.
- É lógico, você queria me bater. Mandou aquelas mensagens: “Marte Invade”, “Marte Invade”, deixa qualquer um doido.
- Terra, vá amolar outro.
- Chama o irmãozão aí.
- Ô Mais Velho, a gostosinha de Papai tá chamando.
- Por quê vocês chamam o velho de Papai? Não pode ser papai, apenas?
- Reverência, eu acho, diz Terra.
- Que é?, fala logo.
- Vem cá, cê tem alguma solução para esses meus bichinhos, eles estão irritando minha pele.
- Por quê você foi criar esses vermezinhos? Enfeitou-se toda, bé bé bé, agora agüenta, fala Júpiter.
- Chama Saturno pra mim.
- Ô Segundão, Terra chamando.
Saturno, aborrecido.
- Que é, droga?
- Você que é o Segundo, não pode falar com Papai?
- Nós já saímos de casa faz tempo, temos nossos próprios filhos pra cuidar, fala você com ele, o velho Sol ainda fica paparicando os novilhas e os bezerrinhos. Fala com Mercúrio, que é o caçula.
- Não dá, Mercúrio fica embevecido o tempo todo, vive na barra das calças de Papai.
- Pede a Netuno, então, não me enche o saco!
- Netuno tá muito longe, Plutão e os outros mais ainda.
- Sei lá, chama Vênus e vá ao Shopping com ela.
- Saturnooo, não leva na gozação, maninhooo.
- Ô Saturno, não me faz ir aí, diz Júpiter bravo.
- Netuno, a chata que falar contigo. Chama logo Urano também, caralho - fala Saturno, possesso.
Netuno e Urano, em côro.
- Fala, chatonice.
- Pede a Papai uma solução por meus bichinhos.
NETUNO – Eu, não.
Urano nem responde.
TERRA (pensativa) – como vou resolver essa coceira? Pai, ô Pai.
SOL – minha filha, já chega a energia que eu mando todo mês procês.
A TURMA DOS FUNDOS – nós não recebemos quase nada, você dá quase tudo pros xodozinhos que ficaram em casa.
SOL, COMO PAPAI – Minha filha, dá uma balançada.
TERRA (aflita) – Eu não!
TODOS – Você que pariu agora que cuide.

Denti-são (da série Tudo Conto)

O garoto foi direto ao ponto, cravando os dentes no dentista.
- Doutor, por quê o senhor cobra tanto?
- Como assim?
- Mamãe falou que estamos gastando uma fortuna em dentista.
- Bom, certamente não fica barato, mas ela também falou noutro sentido, possivelmente. Por exemplo, você pensou que são várias pessoas da sua família fazendo tratamento? Seu pai, pro exemplo, quer reconstituição total.
- É, mas o que o senhor faz?
- Como, o que faço? Faço tudo.
- Tudo, não, o senhor só coloca os nanobots para trabalhar: os nano-robôs é que fazem tudo, reconstituindo os dentes na terceira, na quarta, na quinta dentição.
- Droga de Internet 12.0, só fornece informações pela metade. Escuta aqui, guri, quem é que programa os nanobots? Quem administra a anestesia para vocês dormirem e já acordarem com tudo pronto? Quem compra os nanobots, que custam uma nota preta?
- É o senhor, tá certo, mas os programas estão disponíveis na i12.
- Então tente fazer você! É preciso calcular os ângulos, a altura e conformação tridimensional geral do dente, a coabitação conjunta deles, a inserção nas mandíbulas, a chance de rejeição, a largura de cada um, a geometria de encontro de um com outro, a dureza, o encapamento (que é feito sob encomenda: você sabia que os artistas pagam uma fortuna para ter encapamento de ouro, de platina, de pó de diamantes? Os de vocês não custam nem um centésimo, tá bom?).
- Tá certo, doutor, mas mesmo assim é muito.
- Então vá enfrentar os seis anos da faculdade, com as aulas de física, engenharia, química, desenho por CAD-CAM 87 em 3D, cerâmica e tudo mais e você vai ver que está até barato. Aliás, quando eu era pequeno meu pai contava uma história, de quando tinha posto de gasolina e um garoto como você chegou bravo e depois de ter recebido os dois litros de gasolina no recipiente, disse assim:
- "Papai falou que o senhor é ladrão."
- "Por quê, ladrão?"
- "É que o senhor tira gasolina debaixo da terra e vende pra gente."
- "Ah, é, então devolve aqui e fala pro seu pai tirar gasolina de debaixo da terra."
Pegou os dois litros e derramou de volta no tanque. - Você tá igualzinho àquele garoto, vá estudar, ô menino. E aplicou mais anestesia do que o normal, só de raiva. Um tiquinho a mais, para calar o inconveniente. Precisava falar com o pai e a mãe desse abelhudo e insolente.

Dedo Duro (da série Tudo Conto)

                               Manoel entrou na sala, sentou-se na cadeira para a consulta. Não disse nada. Como demonstração colocou o indicador no tampo da mesa e literalmente afundou-o vários centímetros na madeira, vazando o tampo; levou o dedo para lá e para cá várias vezes, escavando uma trilha caótica. Quase caí para trás, de puro susto. Claro, eu nunca tinha visto isso, e aposto que nem você.
                               Fiquei bem uns cinco minutos sem falar nada. Nem ele.
                               Finalmente ele me disse: .
                               Fiquei calado mais alguns minutos, até me recobrar.
                               - Ô, Manoel, quem mais sabe disso?
                               - Ninguém, doutor, o senhor é o primeiro. Escondi isso muitos anos, ninguém ficou sabendo.
                               Peguei o dedo com todo cuidado, evitando tocar a ponta, mas ele assegurou que era só quando ele apertava.
                               Convenci-o a ir à universidade, onde os físicos se puseram a estudar o problema, pois muitas questões vinham à tona. Como se dava a transição entre a parte dura e a mole do dedo? Como se resolviam os problemas de coesão molecular? Os biólogos foram chamados. Como se mantinha a circulação? Que gênero de células seriam aquelas? As questões iam se sucedendo, Manoel passou três meses indo à e vindo da universidade, tudo pago, já que ele era baixo burocrata. Foi acertado com seus superiores que ele seria abonado dos dias faltados. O que era um divertimento no início foi se tornando cada vez mais um aborrecimento, Manoel foi ficando cansado de tanta celebridade. Se no início ficou feliz de ser notado na rua, para os lados do fim ficava furioso quando era apontado: - "Ih, olha lá o dedo duro!" Com o passar dos meses Manoel foi ficando cada vez mais mal-humorado e um dia não apareceu mais. Procurado no serviço não o encontraram, ele tinha fugido sem deixar nem pedido de dispensa. Sumiu. Voltou a se esconder.
                               Agora todo mundo sabe que existe dedo-duro, pelo menos um, que se apresentou. E se existirem outros, que vivem na clandestinidade, sem ninguém saber? E se forem vários e vários os dedos-duros, até perto de você? E se algum te tocar? Que providências tomar para evitar contato com o dedo-duro? Pois ele pode te causar bastante mal. Como aparecem os dedos-duros? O que implica que qualquer um se torne dedo-duro? Desde então me inquieto com essas perguntas.

Dai a César o que é de César (da série Tudo Conto)

César foi ao PROCON. Pegou senha, sentou na cadeira e esperou pacientemente ser chamado. Quando se sentou diante da moça, disse diretamente:
- Quero o que é meu.
- Como??
- É, me dá o que é meu.
- Não estou entendendo.
- O que há para entender? Me dá o que é meu. Jesus que mandou.
- Não estou entendendo.
- Chame seu gerente.
- É a gerente.
- Que seja, chame ela.
A moça foi lá dentro e explicou a situação. Dona Ruth chegou enfezada.
- O que o senhor quer?
- Quero o que é meu.
- E o que é seu, posso saber?
- Bom, o que não for de Deus é meu.
- Vamos devagar. Que história é essa?
- Tá na Bíblia. Novo Testamento, Mateus 22,21.
- Certo, eu sei, todo mundo conhece a Bíblia, em particular o Novo Testamento (dirigindo-se bem irritada a ele e falando em voz alta, frisando bem as palavras), TO-DO MUN-DO CON-HE-CE.
- Tudo bem, não estou discutindo, só quero o que é meu.
- Não é seu, meu senhor, Jesus estava dando um exemplo, para escapar da armadilha que tentava colocá-lo contra o Estado. É alegórico, entende?
- Alegórico ou não, ele falou: DAÍ A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR E A DEUS O QUE É DE DEUS. Só falta separar o que é de Deus, o resto é meu. Quanto é de Deus?
- Sei lá, uns 10 %, eu acho, o dízimo. Mas contando que 15 % são ateus, 10 % são animistas, outros 45 % são não-cristãos, sobram uns 30 % de cristãos. Do PIB mundial de 15 trilhões daria 4,5 trilhões por ano, separando 10 % sobram uns 4 trilhões de dólares por ano.
- Certo, é isso que é meu.
- Mas o senhor há de convir que há muitos César no mundo.
- Eu sei, mas ninguém veio reclamar, né? Só eu que vim, então só eu que tenho direito.
A gerente foi telefonar para os advogados assessores do PROCON. Consulta daqui, consulta dali, ficou mais de uma hora lá pra dentro, César foi comer salgadinho e tomar refrigerante. Vieram vários advogados, marcaram audiência com o juiz para daí a duas semanas. O caso é que embora esdrúxulo o pleito fora da lei o pedido não estava. Simplesmente não havia postulado legal excluindo o César. Ainda que o Estado fosse laico, aqueles 30 % de cristãos no mundo ou mais de 2,0 bilhões era uma força a considerar. Logo os fundamentalistas americanos se juntaram a César, querendo atraí-lo para a causa de Cristo, pois se houvesse um rei com toda certeza tudo seria mais fácil na volta de Jesus. A coisa toda foi rolando. Advogados oportunistas, de olho na bolada da sucumbência, trataram de juntar-se à legião de admiradores de César.
- Que audácia! – diziam todos, primeiro com repulsa e logo em seguida com admiração crescente.
- De onde esse cara foi tirar essa idéia?
Logo César virou o rei dos oportunistas e os outros César do mundo entraram na onda, para ver se podiam também reivindicar. A mídia toda se interessou, as redes de televisão abriram espaço, César se tornou personalidade universal. Paulo Coelho escreveu um livro sobre ele, A Lição de César. Pais e mães escolhiam o nome “para dar sorte”, o presidente da empresa Lulambão o recebeu com pompa no Palácio da Boanota.
Quando nada, César recebeu patrocínio e vendeu muitas camisas com o dístico “Deus também é responsável”, deu palestras sobre as relações Estado e Religião, recebeu bolsa de estudos ad aeternun na UFA, fez acordos de marketing enquanto seu caso não era julgado nos tribunais internacionais. Enquanto isso nos EUA os fundamentalistas promoviam passeatas.
Teve início no ano passado e de lá pra cá César já acumulou bem mais de 100 milhões de dólares, boa parte vindo de grandes escritórios de advocacia, que nisso viram oportunidade de ouro para levar outras pessoas a abordagens polêmicas.

O julgamento será amanhã, 22/07.

Cristo e os Vendilhões (da série Tudo Conto)

Cristo entrou furioso no templo, chutando os bancos, invectivando com os comerciantes da religião e com os discípulos em pânico atrás.
- Mas Senhor...
- Que senhor, mané senhor!
O povo ali presente para fazer suas ofertas e orar não estava entendendo nada e se afastava com medo.
Vieram os sacerdotes correndo.
- Quem é você?
Os discípulos responderam por ele.
- Jesus.
- Que Jesus?
- Jesus, ora.
- Deixe de ser bobo, que Jesus é esse?
- JESUS, sua besta.
- O Jesus?
- Sim, claro.
- Que nada, é mais um, nós conhecemos o tipo, nós somos da área, certo? É o nosso metier, CERTO? Conhecemos tudo de enganação – disse com cinismo.
E piscou o olho.
Enquanto isso Jesus não parava: chutava os bancos, foi até o altar e puxou o centro de mesa de crochê, com os pastores enlouquecidos se descabelando, mas sem se aproximar, com medo da violência. Jesus estava vermelho, o sangue pulsava nas veias grossas do pescoço.
- Seus ladrões da fé, vendendo Deus na Casa de Meu Pai.
E virou a mesa do altar com estrondo.
Os pastores ficaram possessos.
- Nós vamos chamar a polícia.
O Bispo Nicanor virou-se para seu auxiliar.
- Pastor Sandro, telefone pra polícia.
O pastor pegou imediatamente o celular e ligou para 911.
- Sim, delegado, manda o camburão que tem um doido aqui.
Os discípulos estavam alvoroçados.

Jesus, tal como tinha prometido, veio na Segunda Vinda, porém não encontrou o mundo quase nada diferente no essencial em relação a milhares de anos atrás, vendendo Deus por muito ou pouco. Desceu de sobre as nuvens e o primeiro lugar escolhido foi na Av. N. S. da Penha.