Sunday, September 29, 2013

Estudantes de Intercâmbio (da série Já que Conto)

Estudantes de Intercâmbio

Prosofiev gritou, com aquele vozeirão característico dele:
- Pôrra, quem bebeu as cervas todas?
- Quem cê acha que foi?
Ele deu um murro na mesa, quebrou outra perna, fora a que estava escorada em livros.
- Traz mais livros.
- Merda, Pro, assim cê vai destruir a casa... Foi a turma de ontem, esqueceu, cê bebeu tanto que esqueceu. Você que convidou, acabei não estudando.
- Você também se divertiu, não vem não, tava lambendo a Beta, que eu vi. Ah, é, esqueci mesmo. Vamos comprar?
- Agora não, estou estudando para a prova de química, pega a vodka.
Ele pegou, deu três talagadas que já foi meio litro.
- Vai devagar, cara, só temos mais meia dúzia e a caixa de uísque, não vai durar até de noite, estou estudando, já disse, só se você for.
Ele veio para sala, se jogou na poltrona que já tava com os pés quebrados, dessa vez arriou no meio, o tamanho desse cara é cavalar, é de assustar. E ainda mais que ele anda na ponta dos dedos, quase chega no teto, dois metros e meio, talvez mais um pouco, tivemos que achar um pé direito antigo de três metros. Se eles abrem vagas para estudantes de intercâmbio tem de providenciar alojamentos adequados. Lá em LA não é assim.
- As gatinhas vão vir?
- Uma porra que você vai pegar a minha! A sua é a cavalona.
- Bem, de qualquer modo a gata não ia me aguentar, nem o peso, nem, você sabe... E a minha você que não iria aguentar, só o peso dela iria te esmagar, Silva.
- De noite eu topo.
- O Pacca vem? Taurino vem?
- Se ele vier o chão vai desabar, um cavalo e um touro no mesmo lugar, já viu, né?
- Isso é implicância sua, sou culpado se você é fraco?
- Fraco, não, leve, peso pluma, sou puma, você que é cavalo. Como é o nome do seu pai?
Ele ficou olhando de banda, me senti o próprio idiota.
- Que foi?
- Prosofi, claro, você acha que o EV é o quê?
- Não ei, o que é?
- Filho, né, sou filho do grande ciberarquiengenheiro Prosofi. E você?
- Sou obrigado a saber? Silva, ué, português-americano.
- Bio.2  ou Bio.3?
- Bio.4.
- Quatro? Sou três.
- Porisso que você é um cavalo, em todos os sentidos.
Pro ameaçou vir sentar em cima de mim.
- Sai pra lá, seu ordinário.
Ele riu.
- A Dassaiev é quatro também, ela que pensa por mim, só faço beber e descer a vara. E passear de cavalocicleta, que ela gosta de romantismo.
- Já pegou umas vacabundas?
- Tá doido??? A Das é ciumenta pra chuchu. Tá vendo minha orelha rachada?
De fato, olhando bem, dava pra ver que faltava um pedaço.
- Tô.
- Pois é, coice. Levei um que fiquei três dias zonzo. E só porque olhei pra uma aliá, aliás nem estava interessado, ela iria me esmagar, cinco toneladas, só peso 400, só tava interessado em ver ela andando de patins, aliás, que patins! Obra de mega-engenharia. E você com a Roberta?
- Cara, nem vou te contar... (mesmo assim contei, com isso não estudei química, tirei três, fiquei de recuperação).
Serra, domingo, 28 de outubro de 2012.
José Augusto Gava.

Eu Gosto Lá de Fora porque a Criatividade Lá Vigora (da série Já que Conto)

Eu Gosto Lá de Fora porque a Criatividade Lá Vigora

EU GOSTO LÁ DE FORA (aqui tratam as pessoas pior que aos animais, e olhe que os animais são indevidamente muito maltratados!)
Felicidade

Felicidade foi se embora
E a saudade no meu peito ainda mora
E é por isso que eu gosto lá de fora
Porque sei que a falsidade não vigora
A minha casa fica lá de traz do mundo
Onde eu vou em um segundo quando começo a cantar
O pensamento parece uma coisa à toa
mas como é que a gente voa quando começa a pensar
(2 X)
Felicidade foi se embora
E a saudade no meu peito ainda mora
E é por isso que eu gosto lá de fora
Porque sei que a falsidade não vigora
Na minha casa tem um cavalo tordilho
que é irmão do que é filho daquele que o Juca tem
E quando pego meu cavalo e encilho
Sou pior que limpa trilho e corro na frente do trem
Composição: Lupicínio Rodrigues

E por quê tratam mal as pessoas daqui, a ponto de 90 % ou mais viverem em péssimas condições? É porque são condescendentes com as necessidades alheias, desrespeitadores das declarações constitucionais, porisso não há realmente um grande mercado e não há necessidade de superprodução da inteligência, é só se servir via memória das coisas inventadas no estrangeiro, copiando-o e pagando royalties, direitos de patentes, mais uma escravização. Não há a grande urgência de quando se respeita a todos e cada um.
Serra, sábado, 13 de outubro de 2012.
José Augusto Gava.

Estudantes de Intercâmbio II (da série Já que Conto)

Estudantes de Intercâmbio II

- Prosô?
- Você me chamava de Pro, eu já não gostava, agora ficou pior ainda...
- Ô, bro...
- Não vem com essas gírias velhas de humanos, não.
- Pôrra, vou te chamar do quê?
- Tá bom, chame de qualquer coisa.
- Prosô, é o seguinte, cara, não terça prosa com o Vil, não, ele é uma cobra.
- Literal eu sei, metaforicamente também?
- É, é venenoso, solta veneno, não sei por que nossos progenitores humanos deram pernas e braços pruma coisa daquelas.
- Não deve ser tanto assim, mas se você quiser eu piso nele.
- Não, não, deixa pra lá.
- Ou posso falar pro mano Elefanta (ele detesta ser comparado com aquele refrigerante, mas eu, particularmente adoro Fanta, tomo litros e litros, tanto da azul-uva quanto da laranja) pra sentar nele, cê que sabe.
- Não, deixa pra lá, só não entra de papinho com ele.
- Não tenho simpatia.
- Você vai jogar no sábado?
- Futebol americano?
- Não, futebol brasileiro.
- Por quê, brasileiro, se foi inventado na Inglaterra? Aliás, você sabe, vem de mais longe, muito antes do século XIX, já faz mais de 300 anos.
- Por que os brasileiros se destacaram, cê queria o quê?
- Tem lugar pra mim?
- Poderia até ter, mas você vai agüentar o tranco? Você é um puma baixinho, um nanico.
- Guento, guento sim, claro.
- Só tem cavalão. Para você fazer uma ideia, sou dos menos pesados, média de 500 kg, tenho 400.
- É, mas sou ligeiro. Vocês vão jogar contra quem?
- Insetos. Aranhas até que a gente dá conta, mas centopéia vai ser foda, aquele monte de pernas, vai ser parada dura, quando ele fica nas pernas de trás é o Ziza cariado chupando manga verde.
- Porisso mesmo, vocês vão precisar de um ligeirinho. Quem vai apitar?
- Um dos patronos.
- Um humano?
- Sim, com quatro golfinhos de bandeirinhas, dentro da água, claro.
- Porra, aqueles caras são cricris, eles marcam tudo, não dão folga e ainda por cima são incorruptíveis, enxergam longe e são inteligentes pra caralho, vai ser foda.
- Tem de ser, droga, com aquele monte de pernas tentando enganar a gente. Foi exigência nossa.
OS QUATRO SERES EXPANSÍVEIS
Intrigante, soprando halo.
Recusando-se a trabalhar no horário de almoço.

- Prosô, fala com o técnico por mim, cara, eu faço a prova de Física IV procê.
- Faz?
- Faço.
- Você vai passar cola pra mim?
- Não, faço diretamente, vou treinar a sua letra, a gente troca, arranja um esquema.
- E se eu sentar longe?
- Aí, vamos fazer assim...
Serra, terça-feira, 30 de outubro de 2012.
José Augusto Gava.

Esgotamento Sanitário, Recolhendo o Lixo: A Limpeza da Terra (da série Já que Conto)

Esgotamento Sanitário, Recolhendo o Lixo: A Limpeza da Terra

Um desses doidos foi juntando material inservível em sua mente e lá pelas tantas o conjunto das porcarias entrou em massa crítica, produziu síncope e cuspiu a convicção de que ele devia fazer “o trabalho de Deus”, na realidade de i Deus-Natureza em sua porção oculta e incognoscível, Deus.
Como sondar o que deseja Deus, se ele é oculto?
Como é não-finito, se deseja nos comunicar algo comunicará sem sombra de dúvidas, mas não saberemos, seremos tomados pela necessidade de fazer.
E não era o caso do camaradinha?
Bom, por quê Deus seria modelo para Slobodan Milosevic? Estaria Deus interessado em propor uma limpeza étnica na Terra?
Pode ser, Deus é insondável.
Porém, é de pensar que tudo demorou muito para chegar até aqui e mesmo havendo uma quantidade enorme de pessoas com desvios mentais, também há muita gente boa, aqueles dedicados a se doar, a se dar pelo próximo, por exemplo, as criaturinhas da Vida geral (fungos, plantas, animais, primatas).
Mas esse cara, sem pensar em mais nada, convencido em si, convenceu os outros a começaram movimento doidão tipo o do Jim Jones nas Guianas e outros malucões que pensam em retalhar a humanidade.
OS DOIDÕES DO MATADOURO
1978

Ele partiu do conceito de “limpeza da Terra” que agrada a tantos, esses que, sem procurar solução geral, já julgam o próximo e o condenam.
Bom, se era preciso limpar é porque estava sujo.
O que constituía a sujeira?
Em “certos seres humanos”. E eles começaram a catalogar todos os detestáveis. Como é fácil detestar, quase todos entraram, desde os verdadeiramente detestáveis que molestam crianças, que batem em mulheres, que matam índios, que maltratam velhos, que destroem as criaturinhas, que violentam, que estupram e que devem ser julgados e se condenados colocados em retração social, até os delitos mais simples.
Tudo era lixo.
E se era lixo precisava ser recolhido.
Eles se denominaram “lixeiros” e propunham o “esgotamento sanitário” das porcarias humanas, sem considerar o processo natural de acusação-defesa.
Quando as pessoas começam a julgar o próximo, elas fazem misérias, sem prestar atenção; que se fôssemos mesmo passar pelo crivo nenhum de nós escaparia, principalmente se fosse possível ver nossos pensamentos profundos.
Serra, sexta-feira, 19 de outubro de 2012.
José Augusto Gava.

Escola de Arqueologia (da série Já que Conto)

Escola de Arqueologia

Na EA tinha Horror 101, que era onde os alunos iam ver os filmes de Hollywood sobre arqueologia, como Indiana Jones e a Arca Perdida, onde os objetos eram guardados dos olhos de todos os profanos (até aí, tudo bem) e de todos os arqueólogos, supostamente num vasto depósito da Igreja. Os garotos e as meninas danavam a chorar de puro desespero, não poder ver nem tocar ou reverenciar todos aqueles objetos, sentindo a pobreza que é a vida sem aqueles saberes todos.
Em Horror 102 eles veem a Biblioteca de Alexandria queimar em computação gráfica três vezes (com Júlio César uma, mas não foi a primeira nem a última). Tens uns que rolam no chão, é de dar dó.
TOCANDO FOGO, VÁ SABER
Em sua série Cosmos, Carl Sagan nos fala longa e nostalgicamente das obras que poderíamos ali encontrar e que, no entanto, estão perdidas para sempre.
  • 88 a.C – Ptolomeu VIII pôs fogo em grande parte da cidade numa guerra civil e dispersou os estudiosos temporariamente
  • 47 a.C – Júlio César, depois de escapar de ser assassinado, pôs fogo na frota de Alexandria, que por sua vez acabou queimando áreas da cidade, inclusive edificações que continham 40 mil pergaminhos
  • 273 d.C – O imperador romano Aureliano reconquistou o Egito, queimando a parte de Alexandria onde ficava a biblioteca
  • 391 d.C – O arcebispo cristão Teófilo incendiou propositalmente a segunda biblioteca de Alexandria, com 40 mil rolos, porque ela estava instalada num templo pagão de Serápis.
  • 645 d.C – O conquistador muçulmano, califa Omar, respondeu a um de seus generais que lhe perguntou o que fazer com os famosos livros de Alexandria
Disse ele: Se o conteúdo estiver de acordo com o livro de Alá, podemos passar sem eles, porque o livro de Alá é mais do que suficiente. Se, por outro lado, eles contêm ideias que não estão de acordo com o livro de Alá, não há necessidade de preservá-los. Então, vá em frente e destrua-os.
O cronista Ibn al-Kifti relata que os livros foram usados para aquecer os banhos públicos de Alexandria. Seis meses foram necessários para consumir todos os volumes. Quem queimou a Biblioteca?
A guerra – por três vezes; o fanatismo religioso- cristão e muçulmano -, por duas vezes. Fonte: O Relógio do Longo Agora, de Stwart Brand
Alessandro Martins

Em Desespero 101 eles presenciam a Lara Croft destruir a caverna. E por aí vai, dezenas e dezenas de filmes que os preparam para nunca, nunca chegar perto de Hollywood, nem fazer acordo com os filmagos. Pode-se dizer que eles saem escolados e perdem totalmente a vontade de conversar com os cinegrafistas.
FILMES DE ARQUEOLOGIA

Tem uns que rolam no chão, querem se cortar de gilete, nós não deixamos, claro que não. Se bem que teve uns professores...
Serra, domingo, 28 de outubro de 2012.
José Augusto Gava.

Escala do Coração (da série Já que Conto)

Escala do Coração

Veio a essa moça como um estalo, como um chicote-relâmpago, como se Deus tivesse batido nela, para ela acordar numa deslumbrante epifania, na verdade alumbrante, que traz luz e brilho. Ela parou, como se tivesse ficado tonta e pensou: e as pessoas emotivas, as que se emocionam, as que não se conduzem com a razão imperativa e dominante, tirana e dominadora?
Claro, o lado da Natureza é o do progresso da razão, é o da ordem, ambos os temas bem espelhados na Bandeira do Brasil, Ordem e Progresso, o lema positivista.
A BANDEIRA DA NATUREZA E DA RAZÃO

Então, o Brasil é uma proposta de racionalidade, de cultura racional, como diz Tim Maia.
CULTURA RACIONAL DO TIM
Cultura Racional

A cultura racional
É cultura sem igual
É cultura do desencanto
É cultura transcendental
Linda cultura
Foi feita pra gente saber
De onde viemos
Pra onde vamos voltar
Linda cultura
Foi feita pra desencantar
Pra toda tristeza do mundo
Se acabar
Todo mundo vai saber
Muita paz
Muita união
Universo em desencanto
Leia logo, vamos irmão
Saber de tudo
De toda beleza real
Ficar integrado na fase que é racional
Venha comigo
Andar na estrada do bem
E com consciência
Livrar-se de todo o mal
Quem não quer vai perder
Se não torna a nascer
Nesta vida de amarguras
Leia logo para saber
Saia depressa
Desta fogueira infernal
E vá habitar o seu mundo
Que é natural
Resolva logo
Não fique parado a pensar
O que interessa
É a gente se imunizar
Composição: Beto Cajueiro

KULTUR OU CIVILIZAÇÃO RACIONAL, ULTRA-RACIONAL (quem diria, o Brasil é uma aposta de racionalidade total)
ORDEM RACIONAL
PROGRESSO RACIONAL

Com essa desordem que há por aqui, não parece; e o progresso demorou muito. Quem esteve por trás desta construção?
Essa moça, com a nova proposta da emocionacionalidade (nacionalidade-emocional) estava se pondo contra o progressordem institucional dos políticadministradores do Brasil e não foi sem oposições que começou a caminhar, e não foi sem dificuldade que foi adiante, embora um tema supostamente tão brando não devesse, a princípio, levantar tantas e tão acerbas críticas.
A ideia dela era classificar as pessoas “mais emocionais” (e não as mais emotivas, porque ninguém quer gente chorando em sua porta). De todos os seres humanos, principalmente de todos os brasileiros, quais foram mais profundos na expressão da emoção?
EMOÇÃO AO CONSULTAR O DICIONÁRIO (Houaiss eletrônico) – trabalhando contra a per-turbação.
emoção
substantivo feminino
1      ato de deslocar, movimentar
2     agitação de sentimentos; abalo afetivo ou moral; turbação, comoção
2.1   Rubrica: psicologia.
reação orgânica de intensidade e duração variáveis, ger. acompanhada de alterações respiratórias, circulatórias etc. e de grande excitação mental

Não era o caso de consultar só as expressões poéticas e sim todas as tecnartes, todas as 22 já identificadas, enfim, tudo que falasse do lado macio da essênciexistência.
IDENTIFICANDO A EMOÇÃO
NATUREZA
DEUS
racionalidade
emocionalidade
técnica-ciência
arte-magia
mente
coração
filosofia-ideologia
teologia-religião
existência
essência

Qual seria a ESCALA DO CORAÇÃO?
Como o coração falava?
O que ele dizia?
Como a brandura se manifestava e falava em nossos ouvidos? Ela começou também a coletar os dizeres da essência. A olhar mosteiros, igrejas, retiros, sinagogas, templos, mesquitas e todo lugar aonde as pessoas iam para ficar em silêncio ou falar manso.
A ESCALADA DO CORAÇÃO (a métrica mansa e não ofensiva da emoção) – recolhimento e oração.

E não é que juntou gente?
Finalmente as pessoas tinham uma resposta para a “eterna pergunta” de “por quê estamos na Terra?”
Era para SENTIR DEUS, para mostrar afinação.
Sabe que isso foi o estopim da união das fés?
Serra, sexta-feira, 19 de outubro de 2012.
José Augusto Gava.