A Arca de Nazaré
A pastora estava no púlpito fazendo
gestos, era uma artista, as pessoas se sentiam participantes, uma mãezona
carregando os rebentos no colo.
- Nazaré já tinha construído a arca e
posto o marido (porque era ela que trabalhava naquela casa; nisso ela deu uma
olhada enviesada para o marido) e os filhos para dentro, agasalhado todo mundo,
calafetado tudo, tal como disse o Senhor e nas mesmas proporções. Já tinha
colocado 20 pares de cada animal e de cada plantinha tão jeitosinha, tão
lindinha, tão charmosinha, os esquilos, lindinhos, as pacas grandonas...
Nisso um pastor visitante com mestrado
e doutorado em teologia se intrometeu.
- Pastora, que história é essa?
- Da Arca de Nazaré.
- De onde saiu isso?
Ela faz o gesto, apontando a mão, o
polegar separado, os outros adiantados, querendo dizer, “gente, gente...”.
- Da Bíblia, é claro.
- Qual Bíblia?
- Só tem uma, né?
- A Bíblia hebraica, velho testamento?
- É lógico, é lógico. Qual mais seria?
- Pastora, no Velho Testamento,
Pentateuco, nos cinco Livros não tem nada disso, é ARCA DE NOÉ. Noé, e não
Nazaré. Não tem nenhuma Nazaré na Bíblia. Nazaré que tem lá é a cidade.
Ela muniu-se de paciência.
- Pastor, o senhor está consciente de
que as mulheres são 50 % ou mais de todos e que nós temos de ter nossa presença
marcada?
- NÃO NA BÍBLIA!
- Não grite.
- Grito, sim, na Bíblia, não. A Bíblia
é a palavra de Deus, ou é divinamente inspirada, e lá DIZ NOÉ E NÃO NAZARÉ.
A pastora desceu a cabeça para o meio
das pernas para subir a pressão que tinha caído. Levantou lentamente.
- Em nome de Jesus, por quê não pode
Nazaré?
- Não pode pela mesma razão que
Tiradentes era homem, tinha barba e tudo, a senhora sabe.
- Sei lá, ué, podia ser mulher com
barba postiça. Vai dizer que Cabral não podia ser mulher?
- Não podia, não, a senhora não pode
perverter a história e MUITO MENOS A HISTÓRIA DITADA POR DEUS, construída por
ele para exemplificar o mundo. Onde a senhora estudou teologia?
PASTORA (disfarçando, falando para os
lados) – em casa mesmo, telecurso.
PASTOR (se inclinando para perto,
tentando ouvir) – onde?
PASTORA – em casa. Curso da Internet.
PASTOR – em casa, sei. Então meus
cursos, 16 anos até o superior, dois de mestrado, quatro de doutorado não
serviram para nada?
PASTORA (provocando) – não sei,
serviram?
PASTOR – pelo menos para saber que é
ARCA DE NOÉ, não Arca de Nazaré. E a senhora dizer que eram 16 pares, quando
eram dois, ou sete em poucos casos, é abuso, pastora.
FIEL (se intrometendo) – 20 pares, e
teve um grupo que foi 32, né pastora?
PASTORA – cala a boca, Abimael.
PASTOR (pondo a mão espalmada na
testa, tentando acalmar-se) – pastora, essas são histórias edificadoras, que
Deus tirou do real para simbolizar. E naquele tempo era homem, não era mulher,
a constituição de 88 não tinha colocado a Nazaré como chefe da casa.
PASTORA – reconheceu a Nazaré?
PASTOR – não reconheci nada. É inútil.
Vou falar com a Congregação.
Sai batendo os pés na laje.
PASTORA (dando-se por vencedora) –
viu, gente? Então, como ia dizendo, quando Nazaré já tinha agasalhado todo
mundo, dado Todinho e colocado na cama com cobertor, tratado quem tava com
febre e tudo...
Serra, quarta-feira, 03 de julho de
2013.
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