O Regime Macrô dos
Homens
Essa foi antes daquela outra, quando eles
foram caçar mamutes.
A turma da pré-história, da pré-geografia, da
pré-psicologia, da pré-economia, da pré-sociologia, da pré-ciência, da
pré-filosofia, da pré-religião ...
ALGUÉM – já entendemos, merda, conta logo.
Então, a turma ia toda desabalada, a passos
largos, mas Gronk estava ficando pra trás.
TANEU – gente, o Gronk tá ficando pra trás.
Taneu era o rei das evidências.
BAN - Você que reparou, vá você atrás dele,
vai ver que vocês são amiguinhos.
A TURMA TODA (menos o Taneu) – aí, hem, são
amiguinhos, gentem!
TANEU (bravo, emburrado, levantando o tacape)
– não gosto dessas brincadeiras, não.
TUROR – não guenta brincadeira, fica com as
mulheres e as crianças. Essa bosta vai atrasar a gente, vamos ter de esperar.
Sentam nas pedras, uma hora e meia depois,
sem marcar no relógio, que não havia relógio ainda, era pelas sombras, Gronk
chegou todo curvado.
GRONK (dando as caras, todo satisfeito de ter
sido esperado, bufando) – brigado, gente, cês ter esperado.
ADEDOR – cê deu sorte. Por que essa demora?
GRONK – esqueceram que eu que tou levando o
saco de tubérculos.
ADEDOR – que cê queria, nós somos
macrobióticos, nem veganos nós somos, a turma dos vege-tais. Que cê trouxe
dessa vez?
GRONK – o de sempre: batata, mandioca,
cebola, beterraba. Mais é batata.
TUROR – a gente podia pegar quando chegasse
lá longe.
GRONK – como? Quem iria cuidar, regar, tirar
matinho?
TUROR – isso não tá certo, sei lá, as
mulheres comem carne, proteínas pequenas, dos bichos pequenos, coelhos, até
rato quando falta. Por que a gente não pode? Tô meio fraquinho, isso de só
comer pela raiz tá acabando comigo, não sei vocês. Eu lembro de quando era
criança, a gente comia carne.
ADEDOR – talvez seja sabedoria delas, pra gente
não ficar nervoso, lembra como a gente era pirracento, fazendo bullying na
escola?
DIGOR – a gente aprontava pra caramba, né?
RAGO (ele se lascou todo, vou logo contar o
final do filme, o tigre pegou ele pela barriga, fez crek) – se era!
BAN – é, a gente vai caçar, traz a caça pra
tribo, elas não dão nada pra gente, ficamos nos vegetais, é merda pura. A gente
pega a grande proteína e não aproveita nada, aquelas distançonas, vige! Só de
pensar já fico cansado. E essas batatas não tão dando para botar energia nos
músculos. A gente podia pegar umas partes, elas nem iam reparar.
GRONK (como sua característica esperteza) –
sô a favor, vamos largar o saco por aqui mesmo.
ADEDOR – e nós vamos comer o quê, sua besta?
GRONK – então, alguém que ajude um pouco.
TODOS – não, senhor, quem pariu Mateus que o
embale.
Serra, sábado, 20 de
dezembro de 2014.
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