Por que os Homens Não
Usam Talheres com Gosto
Lá iam os homens para outra tentativa.
Tinham se juntado a eles quatro pirralhos
recém-saídos da bosta supervalorizada dos ritos de passagem, puta que o pariu,
mais quatro pra pajear, assim não dá, é muito difícil: PRAQUÊ, BOÇAL,
TIRAISSODEMIM (porque uma lacraia subiu nele, coitadinho), VAMOVÊ (metido a
gostosinho, o nanico). Fora a florzinha e os que não passaram. Por sorte morria
um monte nas caçadas, mais de 70 %, as mulheres choravam.
TUROR – essas titicas vão atrasar a gente.
Alá, vem dançando e fazendo bagunça.
BAN – Turor, não inventa, não, você quer
enfezar as mulheres, você tá pronto para ficar sem aquilo?
TUROR – não, né? É que lá vem eles fingindo
que são guerreiros.
DIGOR – os outros grupos não foram poupados,
o que você quer, cada um tem de pegar um pouco, quando a gente morrer vai ser
como?
TUROR (indignado) – GEEENTE, eu sei, mas é
chato, né?
VAMOVÊ (querendo falar, todo metidinho) –
gente, tive uma ideia ...
BAN – calaboca, seu otário, aqui é conversa
de homem, vai lá conversar com sua patotinha.
PRAQUÊ, BOÇAL E TIRAISSODEMIM (rindo sem
disfarçar) – tomou?
ADEDOR – pessoal, sem brincadeira, temos de
apertar o passo, cês acham que a caça vai nos esperar sentadinha? Os tigres de
dente de sabre vão comer os mamutes e os bisontes e depois vão vir pra cima da
gente.
TUROR – oferecemos os aperitivos e corremos.
OS QUATRO – que aperitivos?
TUROR (virando os olhos e balançando a
cabeça) – é, que aperitivos?
BAN – Turor, dois são seus filhos.
TUROR – porisso mesmo.
ADEDOR – pessoal, se a gente voltar sem
grande proteína as mulheres vão nos capar, lembrem de quantos são: elas mesmas
50 %, os fedelhos 25 %, velhos, anãos, estropiados (GRAMPÃO se fudeu, tá todo
costurado, ele tá pra morrer, acho que ele vai se jogar da pirambeira; ZOIM tá
deixando o braço infeccionar pra ver se morre, há, há, há), os fror.
BAN – não sei como elas aguentam, aqui pra
nós.
TANEU – Gronk, fale alguma coisa.
VÁRIOS (afobados) – não, Taneu.
Mas já era tarde.
GRONK – gente, fiquei pensando.
TUROR – é porisso que tá fedendo.
GRONK – gente, porque não usamos talheres
(garfos, facas, colheres)?
TUROR – Gronk, será por que estamos TENTANDO
ANDAR, porra?
BAN (que era o mais velho, 32 anos) – Turor,
não grita, você vai chamar a atenção dos predadores.
BOÇAL – predador de quem, tio?
BAN (nem se dando ao trabalho de responder) –
Gronk, meu querido irmão (que sorte que eu tive), com esses seus 19 anos de
sabedoria você deveria pensar que isso toma tempo, tem de lavar, tem de colocar
a toalha, isso é de quando não tínhamos passado pelos rituais, lembra? - o seu
não faz tanto tempo.
GRONK – mas é tão educado.
TANEU (tentando corrigir a burrada) – é,
Gronk, nós estamos tentando andar, lembra disso? - vai tomar muito tempo,
quando a gente voltar você mata a saudade, pode ser?
GRONK – mas é tão requintado! Tão charmoso.
TUROR – Ban, cê tem certeza que não é fruta?
BAN – claro que sim! Isso não existe em nossa
família!
VAMOVÊ – o que é fruta, tio?
Ninguém dá bola pra ele, que sofre bullying
dos outros.
DIGOR – Gronk, você quer ficar outros seis
meses de jejum se a gente perder a trilha da manada?
GRONK – não, uma vez chega. Mas é que é
bonito demais com as mulheres, aquela finura, uma beleza, muito educado.
Aí pararam para demover o Gronk.
Não deu outra, perderam a trilha, quando
chegaram no novo local os tigres e as hienas tinham feito a farra.
Voltaram cabisbaixos, de longe as mulheres
viram todos arriados, perguntaram: cadê a comida de inverno?
TODOS (inclusive os pentelhos) – perguntem
pro Gronk.
Serra, quarta-feira, 24 de
dezembro de 2014.
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