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Monday, June 10, 2013

Sinceramente... (da série Tudo Conto)


Uma criança é levada às barras do Tribunal de Justiça porque só fala a verdade e vai ser apresentada como testemunha incorruptível num caso de assassinato de certa moça. Todos ficam encantados com ela. É um garoto muito bonitinho, comportado, com o cabelo bem aparado e penteado, vestido com apuro, uma gracinha.
O advogado de defesa o chama como testemunha (no Brasil isso não seria possível, vê-se que é no estrangeiro) e começa a interrogá-lo, as pessoas ficam impressionadas com a firmeza do garoto, com sua capacidade de verbalizar, com sua segurança quanto às afirmações, até que as perguntas deixam o específico e assumem o feitio fatídico do inespecífico, do geral.
- O que mais você tem a dizer?
- Papai trai mamãe às terças e sextas, quando diz que vai fazer advocacia “pro bono”. É com a Donna, amiga de mamãe, que é advogada também.
- Mamãe trai papai aos sábados, quando “sai para fazer compras com as amigas”.
- O senhor advogado sonegou 3,5 milhões de dólares do IR e depositou em vários paraísos fiscais nas contas tais e quais. O juiz se apressa em anotar.
- O juiz aqui presente (aponta para a direita) diz que é republicano, mas entrega segredos aos democratas, sem falar em espionagem para país estrangeiro, pelo quê já acumulou vários apartamentos, uma lancha,...
Várias pessoas gritam, apavoradas.
O advogado está desesperado, e pai e mãe também, sem falar no juiz.
- Aquela senhora ali se prostitui às escondidas da família.
- Tira esse menino daí.
- O guarda era ladrão, reformou-se por um tempo e agora está pensando em roubar o banco em frente.
- Filho da puta, vou atirar nele.
- Por falar nisso, a filha que você pensa que é sua é do seu primo.
- Vou atirar naquele filho da puta.
- Sem dizer também que o Tribunal vai despedi-lo amanhã porque você está faltando muito.
- Vou atirar no filho da puta do juiz.
- E aquele camarada ali (aponta) tá devendo 50 mil pra Máfia e vão matá-lo neste final de semana.
- Quem trouxe esse corninho?
- Meirinho, tire esse garoto daí.
[uma barafunda danada, uma confusão dos diabos e o garoto continua entregando todo mundo].

Coleta de Lixo (da série Tudo Conto)

Acontecia assim: sem mais nem menos aparecia na casa do fulano um carro, desciam dele indivíduos muito bem-apessoados, se apresentavam, conversavam com a família daquele ou daquela que iria e, hipnotizando-os ou não, todos concordavam que era necessário, acompanhando-os aquele ou aquela considerado ou considerada muito ruim, gente-lixo, mulheres e homens que batiam em crianças, homens que batiam em mulheres, todos que desconsideravam os avôs e as avós, apesar do mandamento dizer “honrarás pai e mãe”. Os que roubavam, os que entregavam obras de terceira ou de quarta com dinheiro de primeira.
Deixavam em seu lugar simulacros que pareciam gente, mas não eram, eram robôs de carne, carneware, porém bem melhorados, sem aqueles defeitos horrorosos.
Para onde iam aqueles e aquelas?
Será que viravam sabão?
Claro que não, respondiam os bem-apessoados.
Vão para reciclagem. São almas que não mereciam estar na Terra e chegando aqui com bons propósitos se desviaram no caminho e perderam o direito de estarem vivos.
- Vão ser mortos?
- Não, de jeito nenhum, apenas desaparecerão e suas imagens de vida serão aproveitadas em outros lugares.
- Vão apanhar?, desejavam algumas crianças vingativas.
- Não, de modo nenhum, não é assim que i Deus-Natureza age.
- Vão para a prisão?
- Nem pensar, não vão passar nem mesmo um tempinho na prisão, no purgatório, no sanatório das almas. Ele é apenas para os que são passíveis de alcançar o Céu.
- Vão para o inferno?
- Não, já estavam no inferno dentro de suas memórias. Vão ser dissolvidos, não-absorvidos.
E lá iam os bem-apessoados fazer a coleta.
A gente-lixo, uma vez parado o carro na frente da casa, não podia fugir, suas pernas se lhe desobedeciam. Ficavam incapazes de ir a qualquer lugar, de fugir, de tentar escafeder. Diante de seus olhos passavam os atos de covardia.
A gente-lixo tentava argumentar, mas não tinha jeito.
Podia ser um médico famoso, um grande tenista, uma conhecida socialite que maltratava os animais, um padre pedófilo, um pastor que traçava as ovelhas, um deputado que montava um esquema de desvio na Assembléia, um senador influente, não tinha jeito, quando chegavam os bem-apessoados cada um tremia nas bases. Uns urinavam nas calças, outros desmaiavam porque suas vidas tinham sido desnudadas, outros tremiam de dar dó. Caíam dos pedestais.
E já que tudo vinha de Deus não adiantava mesmo nada armar para escapar da justiça, porque esta não era corrupta e venal como a “dos homens”: era justiça mais alta e incorruptível. Não adiantava sacar da poupança para emergências que todo corrupto esperto faz, porque esta justiça vinha do alto.