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Monday, July 29, 2013

Comumbeira III (da série Se Precisar Conto Outra Vez)


                       Apesar de tudo, a Comumbeira (Comunidade Macumbeira, uma oferta extraordinária dos incorporadores aos dedicados às macumbas, quizumbas e colaterais) ia em frente, de vento em popa. Aliás, bastante vento, muita chuva, tempestades formidáveis, raios coriscando, uma coisa até bonita de ver. E a Comumbeira vive praticamente na sombra, tamanhas e tão grandes eram as nuvens negras que pairam, muito escuras. Temporais, tá certo, mas o povo acostumou, ninguém reclama, às vezes fica um pouco denso, não se consegue ver um palmo à frente do nariz, mas tá bom. Tá ruim, mas tá bom, entendeu a sutileza?
ÀS VEZES fica tão escuro que nem dá para olhar pela janela, mas janela pra quê, o negócio é aproveitar pra dormir, e se estiver chovendo, então, melhor ainda, né?
De fato, até é bom tanta chuva, porque o povo resolveu fazer hortas e plantar umas fruteiras na área destinada a isso. Numas ocasiões ficou um pouco alagado, mas o escoamento era bom, a Comumbeira fica no alto do morro, perto da matinha.
Tivemos que nos acostumar, é evidente, porque as mangueiras davam caju, os pés de abóbora davam melancia, as jabuticabeiras davam jacas e assim por diante. Qual o problema? Se você, igual a um idiota, insistir em buscar jabuticabas na jabuticabeira, problema seu, seu Mané. Um probleminha de menor monta aconteceu quando o pessoal insistiu em colocar horta hidropônica, a água não passava para regar as raízes, numas vezes virava gelo, em outras evaporava, ficou um pouco prejudicado. Mas, também, quando dava certo, o que era mais raro, aconteciam umas combinações bastante legais que os outros, os de fora, os não-comungantes poderiam chamar de “aberrações”. Bobagem. Quer melhor que cebolinha que dá folhas como o coentro? Pra peixe não tem nada melhor. A alface-almeirão era um encanto. Ih, eram tantas as combinações que era uma beleza. Nunca havia falta de novidades, era de deliciar qualquer um.
A grande dificuldade era a vinda dos amigos que não compartilhavam de nossos valores, eles estranhavam um tiquinho. Ninguém nunca falou nada, pelo menos para mim, nunca ninguém falou que tinha medo, embora eu notasse um pouco de distanciamento e a pressa de voltar para casa. É natural, a saudade do lar, sem falar que uma ou outra vez quando estávamos fazendo churrasco e alguém estava fazendo algum trabalho adverso a carne fazia cair os dentes, mas nada que a gente não pudesse consertar, tudo corriqueiro.

A única dificuldade que encontramos aqui no condomínio é que os carteiros não querem vir, aí somos obrigados a direcionar as correspondências para nossos respectivos trabalhos. E a Internet não funciona direito, as mensagens trocam de casa ou retornam virexus (vírus-exus) que os maliciosos mandam. Criancices. Fora tudo isso, é um bom lugar. Algumas pernas quebradas, quedas inexplicáveis, dores de estômago, mas é da vida, é ou não é? Quem vai reparar nas miudezas?

Monday, June 10, 2013

Supervizinhança (da série Tudo Conto)


Não é condomínio de luxo, mas parece superlimpo, extasiante mesmo, com tudo no lugar, a grama aparadinha até o detalhe, sem um cisco no chão, sem um palito de picolé, nada. As árvores estão podadas, os meios fios pintados, tudo aguado, ainda com as gotas de água nas folhas, embora não tenha chovido. Não há tijolo fora do lugar, as casas estão pintadas de novo, os telhados perfeitos, tudo na mais perfeita ordem.
HOMEM – querida, nós estamos pagando mais por isso?
MULHER – Por isso o quê?
HOMEM – tá tudo tão certinho, que fico até com medo de me mexer do lugar e arruinar algo.
MULHER – não, estamos pagando a mesma coisa, não mudou nada. Você acha que pode ser nova administradora?
HOMEM – não, nenhum dos caras me disse nada. Nem tem havido reunião do condomínio. Já tem umas 10 semanas que tá assim, sem uma folha partida ou plantinha fora do lugar.
MULHER – por falar nisso, tem mais ou menos uns dois ou três meses que os novos vizinhos chegaram e nós ainda não fomos fazer visita.
HOMEM – não dá, o cara é muito ocupado. Muitas tarefas no estrangeiro, pelo que soube. Vai ver que ela tá dando.
MULHER – como assim, dando? Que linguajar é esse? Aliás, como você sabe disso? Você tá dando em cima?
HOMEM – que isso, Érica? Tá doida!
ÉRICA – E o nome dela é Lois. Gente fina, muito apaixonada, já conversei com ela na rua, ela e ele são jornalistas. Pare de falar besteiras, Jorge.
JORGE – querida, é que o cara não pára em casa, ninguém consegue conversar com ele.
ÉRICA – trabalha muito, só isso. Você e os desocupados dos seus amigos deveriam se mirar no exemplo dele que, aliás, não é “cara”, é Clark. E daí se ele trabalha muito? Vocês desocupados deveriam ir cuidar da vida de vocês. Já conversei várias vezes com ela, a Mirian também, a Débora, a Janete. É isso que é enjoado em você...

Jorge vai saindo de fininho.

Convenção de Condomínio (da série Tudo Conto)

Pelé decidiu dar entrevista ao jornalista.

JORNALISTA – E aí, Pelé, perto dos 70, é uma vida gratificante, né?
PELÉ – É, sim, se bem que o Édson atrapalhou um pouco.
JORNALISTA – Ah, você se atrapalhou algumas vezes?
PELÉ – Não, eu não, o Édson, entende?
JORNALISTA – Mas vocês são a mesma pessoa: Édson Arantes do Nascimento, o Pelé.
PELÉ – você que pensa.
ÉDSON (interferindo) – Não fica me entregando não, você não tem consideração?
PELÉ – Tá vendo o que eu quero dizer? Quando tou falando ele se mete.
JORNALISTA – Mas ele é você mesmo!
AMBOS – Não é, não!
OUTRA VOZ (interferindo) – Gente, não vamos brigar.
JORNALISTA (assustado) – Quem é que tá falando?
OUTRA VOZ (se apresentando) – Sou o Jaques.
JORNALISTA – Quem é Jaques?
PELÉ e ÉDSON – É um branquelo nojento que fica interferindo.
JAQUES – Olha o preconceito, vou denunciar na imprensa.
JORNALISTA (já tratando como grupo) – Calma, gente!
MAIS UMA VOZ – Essa merda tá desandando.
JORNALISTA (totalmente inserido, aceitando tudo) – Quem é você?
MAIS UMA VOZ – Robertão.
PELÉ, EDSON e JAQUES (em pânico) – Não dá assunto, é um negão metido.
ROBERTÃO – vou dá porrada.
OS TRÊS – nós falamos...
UMA VOZINHA FINA – Queridos, não vamos assustar o rapaz.
JORNALISTA (assombrado) – E essa agora?
UMA VOZINHA FINA – Gleide, a seu dispor.
JORNALISTA – Pôrra, tem mulher também?
JAQUES – Robertão, você não ia cuidar dela?
ROBERTÃO – vá tomar no cú, pôrra, cuida você.
GLEIDE – Olha a violência, queridos.
JAQUES – Mas a tarefa era sua.
ROBERTÃO – Essa merda não fica quieta, já tá dando no saco, ela se mete em tudo.
UMA VOZ FEMININA ENCORPADA – Meninos, mais respeito, olha o palavrão.
TODOS (constrangidos) – Desculpa, mãe.
MÃE – Vamos botar ordem na casa. Desculpe, moço.
VOZ INFANTIL – Mãe, posso falar também?
MÃE – Não, querido, é só conversa de adulto.
JORNALISTA (todo atrapalhado) – Se estiver sendo demais eu saio.
TODOS – Não, pode ficar, ainda tem mais gente procê conhecer.
A TURMA GRITA NO FUNDO (uma algazarra danada) – Oi, cara.
ÉDSON – Gente, vamos continuar a entrevista.
JORNALISTA (cabreiro) – Não sei se o povo vai acreditar.
PELÉ – Claro que sim, entende? Eu sou o Pelé.
OS OUTROS – porque nós te ajudamos, seu boboca.
ROBERTÃO (querendo se impor) – Quem deu aquela cotovelada no jogador? Não fosse eu vocês iam deixar passar.
JAQUES – É, Robertão, mas a TV gravou, quase que você complica a gente.
ROBERTÃO – Vá se fuder, seu franguinho, frutinha de merda.
JAQUES – Você sempre exagera, a verdade é essa, nós somos uma comunidade, você não pode agir sozinho.
ÉDSON – Ó, seu jornalista, depois a gente conversa com o senhor, vamos fazer uma convenção do condomínio para aparar umas arestas.