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Thursday, August 29, 2013

A CPI da Caverna de Ali Lulá (da série Ah, Se Eu Te Conto)

A CPI da Caverna de Ali Lulá

Os deputados e os senadores estavam alvoroçadíssimos, querendo um dinheirinho para fazer a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) e um dinheirão para NÃO FAZER.
A negociação se prendia a isso.
Ali Lulá e os 40 ladrões faziam de tudo para fingir que não sabiam de nada e freqüentemente Ali Lulá, também conhecido como Luladrão e Lulambão, chefe da banda e do bando da banda, dizia “não sei de nada” e ficava por isso mesmo. Aliás, não era somente uma caverna, eram várias nas Cavernas-Paraíso fiscais.
Ali Lulá tinha uma senha e os outros tinham outras senhas das sub-cavernas, de modo a cada um ter a garantia de o dinheiro dele-dos-outros estar bem protegido de outros, terceiros e quartos ladrões.
Todo mundo estava muito sensível, porque aquilo de meter a mão no suado dinheiro tirado dos outros era verdadeiramente um acinte, uma desfeita.
Ali Lulá claramente roubava mas cooptou os 40 ladrões, não foi como o Collorido e o P6, que queriam roubar só pra eles.
A caverna da Ali Lulá era cavernosa.
Os deputais e senadores queriam porque queriam ajuda (não AJUDAR, isso não), pressionavam em nome do povo e de todos os des-válidos, de todos os des-providos, aqueles merdinhas que nada tinham e se atreviam a pensar em ter, contra a roubalheira história brasileira, neste ponto já ultrapassando 500 anos de patifarias. “E o nosso?”, perguntavam na maior cara-dura. Era o excesso de querer, era o querer-mesmo: “sabendo roubar, ninguém irá pegar”, era o lema corrente. E alegavam: o falar é de prata (botar a boca no trombone custa menos) e o calar é de ouro (ficar em silêncio custa mais).
A divisão seria proporcional, o Alto Clero (os influentes) levando mais, 80 % para 20 %, o Baixo Clero (os porqueiras) levando menos, 20 % para 80 %, proporção de 4 para ¼, quer dizer, 16/1 como na divisão anti-social do Brasil e do ES. Bom, devemos respeitar nossa sociedade, devemos nos inserir nela, reverenciar seus valores, principalmente se forem NOSSOS VALORES.
Naturalmente Ali Lulá resistia, os 40 ladrões não queriam largar o osso, agora que tinham uma parceira, a Zilmandona.
Vou te contar, a negociação foi difícil.
Por fim o espírito de camaradagem venceu e foram “felizes para sempre” todos os que puderam ser. Os que ficaram de fora, azar. Fica bobo, fica.
Serra, terça-feira, 02 de julho de 2013.
José Augusto Gava.

Monday, April 22, 2013

A Reforma das Minhas Convicções (da série Tudo Conto)


Na mesa de bar o companheiro chegou, cumprimentou todo mundo um por um, abraçou alguns mais chegados, sentou-se e declarou bombasticamente:
- Gente, tou mudando minhas convicções.
O pessoal se olhou, estranhando muito.
- Será que virou boiola? 
- Logo o Dagoberto, que era macho pra caralho, virou folha.
- Se o Dag bichou, eu também vou fraquejar, Jesus Cristo.
O Ramuel tomou coragem e perguntou na bucha.
- Porra, Dagoberto, não vai dizer que você virou veado? Pra mim tudo bem, mas é que logo você?
- Não, gente, não é nada disso. Veja só. Eu não acreditava em morto-vivo, ria pra caramba daqueles palhaços do cinema com os braços e as pernas tortas, balançando e agora, vejam só, com mais de 50 anos, o que nós somos?
O pessoal concordou unanimemente.
- É mesmo, tudo morto-vivo.
- Tem razão, Dag.
- Depois, o seguinte: eu não acreditava em morte após a vida e esses dias morreu o João e nós continuamos vivos, então existe mesmo vida após a morte, né?
- É, de fato.
- Tem razão.
- Eu acreditava, pobre de mim, que os policiais estavam aí para caçar os ladrões e, no entanto, os ladrões como o Lalau, a Georgina, o Jader, o Sarninha, os amiguinhos do Lulambão estão todos soltos.
- Tu é o maioral, Dagoberto.
- Maioral, maioral, trimaioral.
- Isso não existe, Sid.
- Inventei agora, Dagoberto é o trimaioral. Pra classificar ele só isso.
- Pensei que algumas coisas eram impossíveis de acontecer, mas vejam o Lula apoiando a Roseana Sarney, o Collor e outros da mesma laia.
- Tô contigo, Dag, também reformei minhas convicções.
Os carinhas da mesa já tavam aplaudindo o Dagoberto.
- Porra, Dagoberto, de onde tu tirou isso?
- Muitos anos pensando.