Showing posts with label ouro. Show all posts
Showing posts with label ouro. Show all posts

Thursday, June 27, 2013

Toque de Midas (da série Conto Tudo Novo)


Tudo que o Midas tocava virava ouro.
Você tinha se batido de tudo quanto era lado, meditava na questão por meses, escarafunchava, revolvia, se embaraçava, tudo virava um ninho de gato, seus miolos começavam a fundir – você ia ao Midas, se fosse amigo dele, ela dava uma torçãozinha de nada no problema, virava um tiquinho e a coisa toda brilhava sobre esse novo ângulo.
Caramba! Como ele fazia isso?
Ele era diferente mesmo.
Dos amigos e dos parentes não cobrava nada, mas se você tivesse um mínimo de consciência, lembrando das dificuldades que tivera e dos lucros e das facilidades proporcionadas pela solução procurava retornar de alguma forma.
Era coisa estranha.
Não conseguia uma patente? Midas.
Não conseguir prever a bolsa? Midas.
Não sabia em que país investir? Midas.
Tudo que ele tocava virava ouro mesmo, metaforicamente primeiro e, logo em seguida, realmente, porque você enriquecia.
Dos estranhos e dos empresários Midas cobrava, e não era pouco, bastante, mas sempre uma fração insignificante de tudo que os conselhos dele significavam para os proponentes.
Que talento!
A fama dele se espalhou.
As pessoas vinham de longe consultar o Midas. Não importa quão difícil fosse o problema, nem em que área: nos casos mais difíceis ele pedia alguns dias para equacionar e lá vinha com as respostas – os olhos brilhavam de satisfação, a capacidade dele era insólita. As pessoas ficavam boquiabertas, de queijo caído, literalmente.
Ah, é? Como foi que não vi?
Rapaz, dois anos pensando errado, tentando duzentos caminhos diferentes e não vi essezinho daqui, que coisa!
O mundo é grande, tem muita gente, as pessoas vieram em número cada vez maior, foi preciso colocar agenda. Os governos pressionavam, porque também precisavam de ajuda. De fato, ninguém queria mais pensar, já que o Midas SEMPRE achava a solução. Se no começo se embaraçavam DEPOIS DE TENTAR, agora já nem tentavam, tentavam chegar ao Midas. Todo mundo vivia no bem-bom e o pobre do Midas se estourava totalmente.
Bem, qualquer corpo sobre-tencionado acaba deteriorando e dando tilt. Com Midas não foi diferente. Ele foi definhando, já não conseguia comer porque tudo que tocava virava ouro. Ele tinha um dom que se mostrou uma maldição. Midas acabou por morrer.
Agora o mundo tinha um problema duplo: já não tinha Midas para resolver e já não se esforçava por si mesmo.

Wednesday, June 26, 2013

O Martelinho de Vidro (da série Conto Tudo Novo)


                        Argeu colocou uma loja como quem coloca uma igreja protestante, visando a melhoria de vida.
Chamava-se O Martelinho de Vidro, quem entrava comprava (Ganhar? Eu, hem?) um livro de autoajuda (ajudava a ele) que recebeu apropriadamente o mesmo nome, tudo fácil de lembrar, O Martelinho de Vidro. A ideia não era usar o martelinho, pois era de vidro, como o próprio nome diz: visava a autocontenção da pessoa. SE ela usasse o martelinho no dia a dia muito cruel do Brasil, perdia pontos, eram vigiados pelos “vigilantes de vidro”, todos muito transparentes, como os “vigilantes do peso” – a pessoa perdia pontos se quebrasse o martelinho na cabeça de alguém. Pior ainda se enfiasse o cabo na barriga ou no olho desse alguém muito atrevido e safado.
Voltava a zero. Era difícil progredir, como no Brasil já era mesmo, pouca diferença a pessoa sentia, já estava acostumada, eram muitos os percalços.
Os princípios eram os mesmos da maçonaria, onde recebiam o martelo do auto-aprimoramento (no MV era alto-aprimoramento) e um cubo de vidro todo rombo (nem adiantava dizer que se era rombo não era regular, não era geométrico, portanto não era cubo – o que valia era a “intenção pedagógica”, todo mundo que estava por dentro entendia e quem estava por fora, bem, estava por fora).
O Martelinho de Ouro livro foi vendido aos milhões, como Paulo Coelho, você lia e não guardava uma palavra, mas era leve, dava tranquilidade, porque você pensava que entendia, já que não havia nada para entender. As pessoas ficaram muito felizes, pois se sentiam superiores ao finalmente entenderem nem que seja um livro: ERA POSSÍVEL LÊ-LO, o que não se pode dizer desses filósofos abstrusos, inutilmente complexos, vá de retro, satanás, esconjuro, praga dos infernos, nunca vou ler uma coisa dessas. E se souber que algum amigo leu vou dar porrada.
A loja se espalhou pelo mundo, havia muitas cabeças precisando de martelo, a adesão foi maciça e começou a chover dinheiro, as pessoas trabalhavam duro e, entendendo os motivos acumuladores de Argeu em prol do bem de todos que eram seus amigos, doavam o que tinham e o que não tinham, no máximo 10 % para fazer jus à palavra dízimo. É claro que para ter direito a isenção total Argeu transformou a loja em culto e igreja, recebendo todos os benefícios da lei, inclusive isenção de IPVA.
Foi uma febre sem remédio. Transformou-se em movimento (porque a sigla era MV), virou partido político, não tinha mais responsabilidade nenhuma com a vontade da população. Sempre havia público para os desatinos mais elegantes. Argeu instituiu graus (para os prosélitos: aprendiz, companheiro e mestre), inclusive os “graus 33” e até mais altos, pois a vodka vai de 35 a 60 %, mas isso era só para os íntimos, para os quais, diga-se de passagem secreta, era tudo uma festa. Ai, ai, foi tão bom. Não sei por que a polícia se meteu.