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Tuesday, August 27, 2013

Planejando os Filhos (da série Se Precisar Conto Outra Vez)


João e Maria entraram na loja, que era muito bonita, toda branquinha, com bancos brancos e bonitos, assepsia perfeita e cheirosa, com atendentes muito elegantes, o fino da bossa, mais fino que isso seria diáfano, invisível.
ATENDENTE – pois não, em que podemos ajudá-los?
JOÃO – viemos planejar nossos filhos. Qual seu nome?
Estava escrito na plaquinha, mas ela foi educada.
ATENDENTE – Rosa.
JOÃO E MARIA – bom dia, Rosa.
ROSA – bom dia. Já sabem quantos vão querer?
MARIA – quatro.
ROSA – tantos assim? É bom ver que vocês têm boa disposição.
JOÃO – é, sim, quatro para enchermos a fazenda.
ROSA – de que cor?
JOÃO – de quatro cores diferentes: Branco, Negro, Vermelho e Amarelo.
ROSA – mais caro.
MARIA – não tem problema, todos bem tingidos. As peles amarela e vermelha desbotam? A negra fica ruça? A branca amarela?
ROSA – não, de modo nenhum, damos garantia para a vida toda, sempre mantendo o tom, a tonalidade exata que encomendaram. Nem ficam manchadas.
JOÃO – e quanto à altura?
ROSA – menos de 1,70 não recomendamos, mais de 2,30 gera problemas de coração. Vão querer todos ao mesmo tempo?
MARIA – não, um a cada dois anos, vamos sortear a cor de cada vez.
ROSA – e quanto ao QIMC (quociente de inteligência, memória e controle)?
JOÃO – não sabemos, só queremos amar as crianças. O que recomenda?
ROSA – menos de 100 já seria um Bush, teriam de dar atenção o tempo todo, acompanhar; mais de 180 seria um contestador, melhor não disputar. Uns 150, 160, talvez, aí é com vocês.
JOÃO – podemos encomendar atletas?
ROSA – podem, podem, mas é preciso decidir a inteligência primeiro, porque ela não coaduna com atleta: ou bem é inteligente ou bem é atleta, raras vezes as duas coisas juntas dão certo.
MARIA – há uma lista de pessoas da geo-história, seus QIMC, seus feitos?
ROSA – naquela época não havia QIMC ainda, era QI, temos de uns 200 anos para cá uma lista de políticos, de juízes, de governantes, de empresários.
JOÃO – e quanto às 15 mil doenças?
ROSA – bem, é uma curva do sino, poucos querem evitar poucas, poucos podem pagar para impedir todas, a maioria fica no centro. O custo também é progressivo.
JOÃO – acho que vamos ficar um pouco acima da média, né, Maria?
MARIA – é, sim, uns 75 %, acho, pode passar o cartão.
ROSA – cartão bom, pode até ser mais.
MARIA – não, 75 % tá bom. E quando à conformação do corpo, da cabeça, dos pés dos meninos e da bunda, dos seios das meninas? Queremos duas, vamos sortear a cor.
ROSA – bem, quanto a isso há um portfólio bastante largo. A questão é que por vezes as pessoas fazem escolhas disparatadas (não que seja o caso de vocês), porisso nosso programáquina formestrutural permite adequar, ele é chamado “proporcionador”, pois dá as proporções mais desejadas pela coletividade.
MARIA – não falei, João? Foi bom escolher esta firma.
ROSA – Então, estão prontos para falar com nossos bio-psicólogos?
JOÃO E MARIA – sim.
ROSA – por aqui.


Serra, segunda-feira, 16 de abril de 2012.

José Augusto Gava.

Thursday, August 15, 2013

Natureza Moda (da série Se Precisar Conto Outra Vez)


Os psicólogos estavam reunidos: costureiros de alta costura, modistas, desenhistas, padronistas e mais um monte de gente, tudo em volta da mesa para planejar a humanidade – o que haveis de vestir?
Pois era de almas humanas que tratavam.
Mais daquelas das mulheres que dos homens, mas dos homens também, das crianças, dos velhos, de todos que tinham uma superfície psicológica e uma estrutura mental psicológica, tanto sentido quanto razão.
E o foco era a Moda, mulher volúvel que mudava sempre: “a Moda é Móbile”, já diziam. E havia a Moda Verão, bela e luminosa, colorida e vaporosa com cores vibrantes próprias da estação, bem como a Moda Inverno, séria e compenetrada, de cores cinza e pastel.
Eles tinham ideia do que fazer: separar os seres humanos entre ricos e pobres, de modo que aqueles não tivessem remorsos relativos à distinção e estes não percebessem estarem sendo excluídos, pelo contrário, deveriam comprar roupas de moda e marca, que só em razão da etiqueta já custavam 30, 40, 50, 60 % mais caras; faziam isso sem reclamar, gastando o que tinham e o que não tinham para ficar parecidos com os que tinham sem reclamar, só para ficarem um tanto separados dos mais pobres ainda, ou menos ousados.
Os psicólogos mais separatistas ali presentes pretenderam até criar Moda Primavera e Moda Outono, quatro estações de mudança de pele durante o ano, mas a maioria foi contra, bastavam duas, pois mais que duas iria abrir um fosso por demais notável.
A ideia era a da variação.
Roupas novas na forma e no conteúdo, visando destacar os que podiam comprar (os ricos) dos que não podiam (os pobres), expondo duas vezes por ano roupas caras. Mudavam-se os padrões pelos traçados ou desenhos, os tecidos de base, as cores, os cortes, os adereços, tudo que se podia ajuntar para mostrar essa sutil diferença projetiva que é a liberdade, a capacidade de avançar sem consideração pelos outros.
Essa era a missão: destacar sem provocar revolta.
Pelo contrário, os pobres queriam parecer sem poder e com isso se tornavam ainda mais submissos. Os psicólogos (práticos, não teóricos; porém isso faz falta, se puder ser colocado sem ostentação) quebravam a cabeça, pediam ajuda aos tecnartistas (os técnicos-artistas das 22 tecnartes), aos magos, usavam todos os seus conhecimentos. E de seis em seis meses lançavam as coleções Da Estação, digamos, Coleção de Verão. Os ricos corriam às lojas para separar-se dos pobres. Os pobres também “passavam os olhos” para tentar evitar o distanciamento, pelo menos os pobres não-conformados. Era uma luta em dois rounds anuais e os pobres sempre perdiam, nocaute.
Que fazer?
Foi isso que perguntou Lênin.


Serra, quinta-feira, 05 de abril de 2012.

José Augusto Gava.