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Thursday, August 15, 2013

Natureza Moda (da série Se Precisar Conto Outra Vez)


Os psicólogos estavam reunidos: costureiros de alta costura, modistas, desenhistas, padronistas e mais um monte de gente, tudo em volta da mesa para planejar a humanidade – o que haveis de vestir?
Pois era de almas humanas que tratavam.
Mais daquelas das mulheres que dos homens, mas dos homens também, das crianças, dos velhos, de todos que tinham uma superfície psicológica e uma estrutura mental psicológica, tanto sentido quanto razão.
E o foco era a Moda, mulher volúvel que mudava sempre: “a Moda é Móbile”, já diziam. E havia a Moda Verão, bela e luminosa, colorida e vaporosa com cores vibrantes próprias da estação, bem como a Moda Inverno, séria e compenetrada, de cores cinza e pastel.
Eles tinham ideia do que fazer: separar os seres humanos entre ricos e pobres, de modo que aqueles não tivessem remorsos relativos à distinção e estes não percebessem estarem sendo excluídos, pelo contrário, deveriam comprar roupas de moda e marca, que só em razão da etiqueta já custavam 30, 40, 50, 60 % mais caras; faziam isso sem reclamar, gastando o que tinham e o que não tinham para ficar parecidos com os que tinham sem reclamar, só para ficarem um tanto separados dos mais pobres ainda, ou menos ousados.
Os psicólogos mais separatistas ali presentes pretenderam até criar Moda Primavera e Moda Outono, quatro estações de mudança de pele durante o ano, mas a maioria foi contra, bastavam duas, pois mais que duas iria abrir um fosso por demais notável.
A ideia era a da variação.
Roupas novas na forma e no conteúdo, visando destacar os que podiam comprar (os ricos) dos que não podiam (os pobres), expondo duas vezes por ano roupas caras. Mudavam-se os padrões pelos traçados ou desenhos, os tecidos de base, as cores, os cortes, os adereços, tudo que se podia ajuntar para mostrar essa sutil diferença projetiva que é a liberdade, a capacidade de avançar sem consideração pelos outros.
Essa era a missão: destacar sem provocar revolta.
Pelo contrário, os pobres queriam parecer sem poder e com isso se tornavam ainda mais submissos. Os psicólogos (práticos, não teóricos; porém isso faz falta, se puder ser colocado sem ostentação) quebravam a cabeça, pediam ajuda aos tecnartistas (os técnicos-artistas das 22 tecnartes), aos magos, usavam todos os seus conhecimentos. E de seis em seis meses lançavam as coleções Da Estação, digamos, Coleção de Verão. Os ricos corriam às lojas para separar-se dos pobres. Os pobres também “passavam os olhos” para tentar evitar o distanciamento, pelo menos os pobres não-conformados. Era uma luta em dois rounds anuais e os pobres sempre perdiam, nocaute.
Que fazer?
Foi isso que perguntou Lênin.


Serra, quinta-feira, 05 de abril de 2012.

José Augusto Gava.

Wednesday, June 12, 2013

Pó-lícia (da série Conto Tudo Novo)

                        A Pó-lícia era a polícia encarregada dos entorpecentes, tudo aquilo que entorpecia, porém não a deixaram operar no plano da mídia.
Ela também não fazia questão de pegar os pó-bres nem os pó-bres-coitados, porque estes consumiam pouco, não tinham dinheiro para comprar. Quem tinha dinheiro é quem podia gastar a verdadeira fortuna mensal. Pobres e pobres-coitados iam ter? Mal conseguiam se alimentar! Podiam, isso sim, consumir maconha e quando davam.
A Pó-lícia começou a pensar: por quê os que consumiam eram liberados? Seria como liberar os usuários de armas, inclusive as privativas das forças-armadas para só pegar os fabricantes e vendedores, no caso os traficantes. Cada vez que o usuário consumia ele mandava um recado, realimentando os traficantes pó-dutores e im-pó-rtadores. Os pó-mitentes compradores estimulavam os outros, porque se não há comprador como pode haver vendedor? Se não há comprador de sofás quem se habilitará a fazê-los? Seria perda de dinheiro. Liberar os consumidores seria como dizer aos outros para lhes ofertarem. Se não iam liberar, então que fizessem o serviço certo.
Aliás, os traficantes tinham armas de todo tipo, inclusive as já mencionadas armas privativas: como as obtinham? Ninguém vai a uma loja e encomenda arma de alto poder de fogo, que só as forças armadas devem possuir (se devem). Quem trazia para eles? Podiam vir através das fronteiras ou podiam vir com gente imune a vigilância nos aeroportos e portos, quer dizer, diplomatas. Ou elementos traidores das FA, que por sinal vigiavam atentamente. Se os traficantes montavam verdadeiros exércitos é porque de um lado tinham mercado e do outro quem os abastecesse de armas letais.
Era esquisito.
Para começar, era esquisito uma sociedade - que se dizia ordeira e pacífica - permitir a existência em mãos de civis ou até de policiais (quanto mais de bandidos!) de armas de quaisquer tipos. Se não quero que pessoas atirem com canhões vou começar por proibir fabricação de canhões, de balas para eles, de veículos especiais transportes deles. De fato, não vemos pessoas vendendo canhões a civis, de forma que isso é realmente proibido; se é proibido para canhões, porque não para os revólveres, os canhões de mão?
Isso ultrapassava o entendimento da Pó-lícia.
Estando os pó-bretões e a pó-breza em geral excluída, era preciso mirar os que tinham dinheiro, inclusive gente das artes. Havia os filhos pó-digos que renunciavam às famílias para vivenciar esse estranho mundo, mas esses não eram tantos assim. Havia o pó-der e os pó-líticos (que tinham coração de pedra, até de crack), era preciso prestar atenção neles. Onde - como em Cingapura - de fato não querem, não aparece, mas nas sociedades frouxas é comum. Ninguém está pregando a volta da dita-dura, só que se é para fazer que façam certo, pensava a Pó-lícia.
O pó-blema era que a pó-babilidade era maior em certos setores que em outros, mas nesses não se podia tocar, tremenda hi-pó-crisia.
A sociedade estava enfrentando uma pó-cela.
Os pó-cessadores eram muitos, os pó-cessos eram poucos.
Falava-se uma coisa, fazia-se outra.
Que vergonha!
Que hi-pó-critas nós éramos!
Incapazes de lidar com nossas falsidades.
Também, muitos pó-liciais estavam de braços e pés amarrados, no caso dos braços o braço esquerdo para quem é destro.
Que vergonha eu sentia, cada um que caía doía no coração. Matogrosso quis gritar, mas em cima eu falei, os homens estão com razão, nós arranjamos outro lugar.

A questão era esta: ir para onde?