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Sunday, September 01, 2013

Desprendendo e Caindo, Caindo... (da aérie Ah Se Eu Te Conto)

Desprendendo e Caindo, Caindo...

Separei-me da corrente principal da vida e senti que ia distanciando, distanciando, distanciando de toda vida. Eu queria me segurar, mas não teve jeito, foi uma sensação bem ruim a de não poder permanecer.
Antes de acontecer isso, eu queria a independência, a liberdade em relação aos outros, porém quando aconteceu de fato eu já não queria mais, fiquei é desesperada, em pânico ao ver os fios que me colavam à existência se soltando irremediavelmente.
Ó, meu Deus, me dê mais um tempinho...
Saber que a minha vida desde aquele instante iria primeiro ser decepada cruelmente, depois virar coisa separada, biológica apenas no sentido de pouco antes ainda estar consistente dentro dos vínculos; que logo mais meu corpo iria se tornar físico-químico sem qualquer vida, depois endurecer e finalmente virará pó, ISSO foi terrível.
Que perspectiva!
É o fim.
Pensar que não aproveitei tudo de lindo que havia, todo o verde, todas as cores, todas as flores que mamãe trazia para nós.
Ó, meu Pai do Céu, quanto tempo desperdiçado.
Penso em tudo e me desespero.
CAPITÃO DE INDÚSTRIA
Capitão De Indústria

Eu às vezes fico a pensar
Em outra vida ou lugar
Estou cansado demais
Eu não tenho tempo de ter
O tempo livre de ser
De nada ter que fazer
É quando eu me encontro perdido
Nas coisas que eu criei
E eu não sei
Eu não vejo além da fumaça
O amor e as coisas livres, coloridas
Nada poluídas
Ah, Eu acordo prá trabalhar
Eu durmo prá trabalhar
Eu corro prá trabalhar
Eu não tenho tempo de ter
O tempo livre de ser
De nada ter que fazer
Eu não vejo além da fumaça
Que passa e polui o ar
Eu nada sei
Eu nao vejo além disso tudo
O amor e as coisas livres, coloridas
Nada poluídas
Eu acordo prá trabalhar
Eu durmo prá trabalhar
Eu corro prá trabalhar
Eu não tenho tempo de ter
O tempo livre de ser
De nada ter que fazer
É quando eu me encontro perdido
Nas coisas que eu criei
E eu não sei
Eu não vejo além da fumaça
O amor e as coisas livres, coloridas
Nada poluídas
Ah, Eu acordo prá trabalhar
Eu durmo prá trabalhar
Eu corro prá trabalhar
CORRA, LOUCA, CORRA

O ACASO VAI ME PROTEGER...
Epitáfio

Devia ter amado mais
Ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais
E até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer...
Queria ter aceitado
As pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria
E a dor que traz no coração...
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...
Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos
Com problemas pequenos
Ter morrido de amor...
Queria ter aceitado
A vida como ela é
A cada um cabe alegrias
E a tristeza que vier...
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar...(2x)
Devia ter complicado menos
Trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr...

Composição: Sérgio Britto

Estou indo para onde muitos já foram antes de mim, milhares e milhares todos os dias, sei que muitos milhões morrem por ano.
A FISIOLOGIA DAS FOLHAS               

TODOS OS MORTOS ESTÃO SE TRANSFORMANDO EM PÓ

É só o corpo, a gente sabe, mas vivi tanto tempo com ele...
Serra, sexta-feira, 07 de dezembro de 2012.
José Augusto Gava.

Cofre (da série Ah Se Eu Te Conto)

Cofre

Acordei, estava escuro.
Que breu!
Fiquei deitado curtindo o silêncio.
Que era bem intenso, profundo, não se ouvia praticamente nada.
Nunca na vida pude curtir um silêncio desses.
Obrigado, meu Deus, por essa dádiva, tantas vezes a gente não pode aproveitar as coisas devido à correria da existência!
Quando ocorre, a gente tem de saber aproveitar e por outro lado agradecer. Sentir-se grato é o mais importante.
Abri os olhos de novo.
Escuridão total.
Será que dá para acender a luz?
Acho que não.
Tentei levantar a cabeça, bati na madeira, caí de volta.
Tá meio apertado aqui, ainda bem que não sou claustrofóbico, fico bem em qualquer lugar.
Cheguei prum lado, madeira. Pro outro, madeira, madeira atrás, madeira na frente, madeira em baixo, madeira em cima, em todo lado madeira.
Caramba, tô morto.
Morto.
Mortinho.
Mortinho da Silva.
Completamente morto.
Agora que já identifiquei a situação, tá na hora de dar o fora.
Levantei a mão para atravessar a madeira, não deu, tem algo errado, parece que não deixaram nem uma brechinha, nem um buraquinho, nem uma fresta, puta merda! Tô preso. Quem foi o idiota que pregou o caixão? Tô vendo parafusos, que bosta. Aparafusaram. Super-aparafusaram, por sinal. É o cúmulo da estupidez. Como vou sair daqui? Porisso que não entra nem uma réstia de luz, sou uma alma enclausurada. Por quê acham que as almas vão logo embora? Deve ser pelo cheiro, né, seus estúpidos? Embora o corpo fosse meu, agora está apodrecendo, estou fudido.
É porisso que chamam de cofre.
Estou irremediavelmente preso. Será que algum anjo vem me resgatar? Se eu começar a gritar será que vão achar que o morto tá vivo? E se eu começar a balançar o caixão? Vou tentar pensar mais um pouco.
Serra, terça-feira, 11 de dezembro de 2012.
José Augusto Gava.

Thursday, August 01, 2013

Era Uma Vez (da série Se Precisar Conto Outra Vez)


Digo “era” porque não é mais, morreu.
E o que é morrer?
Há a máquina, que é o corpo, inclusive cérebro, e existe o programa que é a mente; o programáquina é o corpomente, funciona tudo junto. Quando a pessoa morre há paralisação do programa e o corpo começa a deteriorar, todas as funções principiam a síncope mortal, a degeneração, o rompimento das ligações. O corpo, que é natural, continua funcional um infinitésimo depois, mas já não há programa, ele sumiu. Será que esse programa é captado por Deus, o outro elemento do par polar oposto-complementar i Deus-Natureza? Seria isso a alma? Esse intangível programa impresso é que é desligado? Que sei eu?
Também, isso tudo é digressão.
O fato é que os pais dela gostavam da atriz Uma Thurman e aproveitaram o UMA, juntando-o ao nome de família, VEZ, e ficou assim, Uma Vez. Conforme crescia as pessoas zombavam dela, as amigas principalmente e os amigos, antes destes ficarem adultos e isso ser esquecido em nome do sexo.
Uma Vez sofria. Quando iam começar os contos de fadas não podiam dizer “era uma vez...” na presença dela porque parecia zombaria.
Por quê pais e mães teimam em colocar esses nomes esdrúxulos? Será que não pensam nas conseqüências para os filhos? Os governos proibiram aqueles demasiados ruins do passado e aí passaram a fundir os nomes, como Valter e Regina (donde veio Valgina), Carlos e Cleide (Cabide), Mikejekson (Michael Jackson) e uma multidão dessas. Num momento de loucura, quando a criança não pode se defender, colocam um nome que vai acompanhá-la por 50, 60, 70, 80 anos. É duro.
E ninguém fez um livro a respeito.
É difícil o juiz autorizar mudar de nome, pois ele já foi cravado na memória social indelével. Como apagá-lo de todos os registros? O juizado tem razão, pois as pessoas poderiam fazer um monte de asneiras e depois meramente mudar de nome, apagando todos os apontamentos. Seria saída fácil demais.
Tudo depende de pais e mães e da liberdade que eles têm (deveriam renunciar a tomar a liberdade da criança) para firmar um destino. Deveriam fazer documentário mostrando tudo isso, investigando os danos causados a tantos no Brasil e no mundo. Penso que seria interessante. Quantos sofrem em razão disso? Pais e mães deveriam ter mais consideração.


Serra, segunda-feira, 16 de abril de 2012.
José Augusto Gava.


NOMES ESQUISITOS DE BRASILEIROS (o estrangeiro é muito maior e deve ser muito mais esquisito)




Wednesday, July 03, 2013

A Luz no Fim do Túnel (da série Se Precisar Conto Outra Vez)


                        Depois me disseram que entrei em coma e morri, tendo sido ressuscitado por eletrochoques que nem nos filmes. Fiquei dois ou três minutos morto, me disseram, eu não vi, claro.
O que eu vi foi um túnel e lá no fundo uma luz, na direção e sentido da qual fui caminhando cada vez mais depressa, no fim já tava correndo.
Se o Paraíso é como dizem?
É melhor.
Não tem de brigar com a mulher, não tem de fazer compra no supermercado (não sei como a pessoa se alimenta, ninguém me disse nem deu tempo de perguntar), não tem de pagar as contas, não fica em fila, não tem trabalho nem clientela para atender, não tem calor nem frio, nem sei como dizer tudo.
Mas o melhor é a bem-aventurança, o estado de bem-estar total.
Sabe aqueles problemas de matemática que a gente não atinava a solução, que a professora passava na escola e depois a gente fez no segundo grau e na universidade, aquelas coisas cabeludas de integrais triplas? Pois é, você fica sabendo de prima, resolve com a maior tranquilidade, matrizes de 100 mil equações com 100 mil incógnitas. Não me pergunte como. Sabe a física e a química, a biologia, a psicologia? Barbada, cara. Puxa, me sentia um gênio, não ficava colando para passar raspando com 5,0, que frio na barriga. Sabe a questão dos “três primeiros segundos” do universo? Sabe a questão da gravidade quântica e a solução para a Prova de Godel?
E o futuro?
Você não tinha que ficar com medo como no Brasil. Não havia insegurança, nem sujeira nas praias, nem Big Brother, nem música alta nos ônibus, nem pastores ressuscitando os mortos, nem enganação pelos empresários (aliás, não vi um só deles por lá, talvez houvesse um retiro especial, sei lá). Tudo isso eu soube naqueles dois ou três minutos, foi instantâneo.
Então me trouxeram de volta.
Os médicos, com grande esforço e competência, os filhos da puta me trouxeram de volta. E a minha família toda em volta, rezando, os sacanas, logo que melhorei já bati em meia dúzia. Nunca mais falo com eles.
E quando eu estava vindo de volta pra esta merda alguém buzinou no meu ouvido que eu iria viver mais 65 anos.
65 ANOS, PUTA QUE O PARIU!
Fiquei bravo demais.
FICAR CALMO O CACETE!
35 anos no Brasil e agora mais 65, 100 anos, quem aguenta?
Vai encher o saco de outro, fazer entrevista pôrra nenhuma.

Thursday, June 27, 2013

Panaceia Universal II (da série Conto Tudo Novo)


- Estive pensando.
- É? É porisso que você está com dor de cabeça?
- Rá, Rá, Rá. É o seguinte: a morte livra a gente de todos os problemas, acho que é porisso que as pessoas dizem “descansou” quando o sujeito morre.
- Só que para “descansar” é preciso estar vivo.
- Me deixe falar, caramba.
- Fala.
- Então, podíamos anunciar a morte como solução geral, panaceia universal. Um produto chamado Morte.
- Essa foi a maior bobagem que você já disse. E olhe que você se supera continuamente.
- Rapaz, você já viu as propagandas que existem por aí? Para as coisas mais cretinas do mundo. Eu nunca tinha lido o Dilbert, mas decidi ler, comprei e achei ótimo. Selecionei umas passagens para você.

PASSAGENS NA ESTAÇÃO DILBERT (Scott Adams)

LIVRO, PÁGINA                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   
CITAÇÃO
2, 10
“Combina tendências passadas irrelevantes com a ignorância e a cobiça do usuário”.
2, 12
“Aí sou pago, compro algum produto desnecessário e me sinto melhor novamente”.
2, 46
“Isso não passa de uma vigarice, criada para convencer estagiários ingênuos a comprar placas caras e inúteis para pendurar na parede”.
3, 40
“Preciso montar hipóteses irrealistas pra defender um péssimo projeto”.
5, 27
“Portanto, só resta a fraude, que eu gostaria que vocês chamassem de ‘marketing’”.
5, 29
“Utilizo um processo que os experts denominam ‘desonestidade’”.
5, 37
“Sim... Um amontoado de informações inúteis e conclusões sem fundamento”.

                        - É, olhando por esses prismas, pode dar certo, sim. O que você propõe?
- Primeiro temos de contratar firma de propaganda. Depois um advogado. A seguir, mais adiante, um contador de confiança que separe uma grana para o caso de sermos presos e outra para corromper os políticos e governantes.
- É, você tá se esquecendo do governo.
- Não, ele já tá ocupado com as patifarias dele, não vai prestar atenção na gente. Ademais, podemos dar participação, sem falar em fazer propaganda dos tributos que nem somos nós que pagamos.
- Como iríamos fazer?
- Acho que vender em pílulas, para bula pegamos os efeitos colaterais de qualquer remédio, o povo nem lê. E se ler vai pensar que corre riscos necessários. Certamente vamos frisar que acaba com os problemas das pessoas: “depois de tomar Morte você não verá mais problemas”. Ou “seus problemas findarão”. Ou “você nunca mais irá sentir dores”, nem precisará gastar dinheiro com outros remédios. “Dê adeus a sua sogra”.
- Pô, legal. De passagem vamos resolver o problema da superpopulação planetária, acomodando a gente toda ao nível de pesquisa & desenvolvimento da tecnociência, à frente de ondas da tecnologia.
- Isso! O Clube de Roma vai dar verbas, o Bilderberg, a Trilateral, um monte de gente.
- E os governos, por trás dos panos.
- “Morte, mate todos os seus problemas de uma vez”.
- “Morte, você não terá mais dívidas nem dúvidas”.
- “Ser ou não ser, eis a questão”.
- Vamos conversar com os sócios.

Wednesday, June 12, 2013

Álbum de Figurinhas (da série Conto Tudo Novo)


- Como tá seu álbum?
- Lotado. Repleto. Não perco uma.
- Pra você é fácil.
- Pra você não deveria ser difícil.
- Certo. Pego na mão toda noite ou até de dia, mas elas escapam, se esquecem de mim. Já com você não tem jeito, no final você sempre pega, mais cedo ou mais tarde.
- Sonho, você pega quantidade, muitos todo dia, não consegue segurar quase nenhum. Eu espero uma vida inteira, mas sempre pego. Às vezes um ano só, ou menos, às vezes 100 ou mais – Niemeyer tá demorando, mas uma hora pego ele. Como o Roberto foi uma luta. Poucos escapam mesmo.
- Jesus...
- É.
- Buda você pegou, mas ele foi para outro lugar. E os vampiros?
- Tudo charme, demora um pouco mais, mas contratei um pessoal barra pesada, os Van Helsing estão comigo há bastante tempo.
- Sem falar que você pega uns quando estão comigo.
- Fazer o quê, né? Morrem enquanto estão dormindo.
- Morte, não sei como você não se cansa.
- É divertido: eles se escondem atrás da beleza, da fama, do poder, da riqueza, da religião, não tem jeito, pego todos.
- E aquele que Jesus disse que ficaria?
- Ele disse que ficaria, não que não morreria, então um dia pego a foto dele também.
- Você não consegue ficar com eles? Só com a foto?
- Só com a foto, eles vão pra outro lugar.
- Apesar de tudo tenho desenhos formidáveis, sonhos fantásticos, psicodélicos, uns doidos demais.
- E a seção de “sonhos de decência” e “sonhando com a felicidade alheia”?
- Quase vazia, pouca gente. Tem poucos nos “sonhos de decência” porque a Decência não faz a tarefa com gosto, não doutrina: onde encontrar gente decente hoje em dia? O Álbum dela tá quase vazio, um ou outro, um santo aqui, outro ali, um mártir, poucos, pouquíssimos.
- Em compensação o álbum da Intolerância tá cheio, né?
- Agora você falou tudo.
- Queria poder ficar conversando mais com você, mas o trabalho está pesado, só este ano mais de 60 milhões de fotos para tirar.
- Não sei como você aguenta.

- Prática, antiguidade na profissão, persistência, compromisso com o trabalho.

Monday, April 22, 2013

A Morte Oferece Passagem (da série Tudo Conto)



Dacko Revin está para morrer.
A Morte (é mulher) aparece diante da porta da casa dele num subúrbio dos EUA. É bem apessoada, usa blazer preto marca-de-giz combinando com a calça também do mesmo tecido. Na lapela, discreta foice de ouro com a lâmina tendo de envergadura metade do comprimento do cabo.  Os cabelos estão presos por uma piranha. Leva uma maleta com 5 x 15 x 45 cm, encapada em couro preto, tudo em preto.
Bate, a esposa de Dacko atende.
- Sim.
- Preciso falar com Revin.
Ela não estranha nada, deixa-a entrar como se íntima fosse. Naturalmente, ninguém viu A Morte antes do momento da morte, mas todos foram instruídos a esperá-la, de modo que ninguém a encara mesmo como inteiramente desconhecida. A Morte vai subindo a escadaria, como se conhecesse a casa, e conhece mesmo.
Dacko toma um susto.
- Quem é você? Mesmo sabendo, ele pergunta, como se perguntar afastasse a realidade.
Abrindo sem cerimônia a maletinha junto do criado mudo, ela vai tirando uma seringa, empurrando o líquido como fazem as enfermeiras, fazendo soltar um pouco dele e dando um piparote no conjunto.
- A Morte, claro.
- Como, A Morte, você está de gozação?
- Não, de maneira nenhuma.
- Mas eu ainda posso viver mais, pelo menos uns seis meses, um ano, com sorte até dois.
- De fato, poderia, uns cinco anos, mas acho que não, decidimos que você está “pela hora da morte”, está incomodando sua esposa e filhos, seus vizinhos, seus pais, seus irmãos.
- Não, não, não, pelo amor de Deus.
- É justamente o amor de Deus que me move. Busco o perdão dele.
- Pelo menos existe vida após a morte?
- Como vou saber?
- Mas você existe há muitos, muitos anos!
- E daí, porque as sequóias vivem milhares de anos há vida após a morte? Porque os corais vivem 20 mil anos há vida após a morte? Vida após a morte é de quem permanece vivo. Que tipo de lógica é essa?
- E Deus, você viu Deus?
- Não, só os eleitos são absorvidos. Eu mato 50 milhões por ano.
- Certo, mas a mando dele.
- Pouco importa, ele não quer saber de assassinos.
- Você acha que aquele cachorrinho que eu adorava e mandei matar injetando overdose de barbitúrico conta?
A Morte olha-o de banda, com cumplicidade, e pisca. Como ela é branquérrima fica parecendo deboche.
- Não brinca!
- Nunca brinco. Posso contar piadas que são de morrer de rir, mas nunca estou brincando.
- E Pol Pot, que matou ou mandou matar três milhões. E Hitler? E Napoleão? E Mao? E Stalin?
- Pol Pot vai ter de reencarnar três milhões de vezes, o sacana, só pra dar trabalho.
- Cruzes.
- E vamos parar de desviar minha atenção. Estenda o braço.
- Não, não, não, pelo amor de Jesus Cristo.
- Você é judeu.
- Certo, mas ele também era, um compatriota.
Como ele demora em estender o braço, pelo contrário, procura encolhê-lo, A Morte o puxa com certa rispidez.
- Não precisa ser rude.
- Você tem ideia de quantos ainda tenho de matar hoje?
- Tenha consideração.
- Você teve?
 - Mas o Spirite estava sofrendo.
- O objetivo de vocês deve ser lutar pela vida, não facilitar a morte: fazer pesquisas, desenvolver, lutar até o fim, porque isso proporciona novos conhecimentos para a geração seguinte. Não sei qual interesse Deus tem numa espécie porqueira como a de vocês, mas isso é questão dele. No meu caso já estou quase cumprindo minha cota, outro assassino assumirá em breve.
A Morte aplica a injeção, Dacko começa a estrebuchar, a esposa corre.
- Querido, querido...
- Meu amor, não deixa ela me levar.
Ela, que nada vê, se desespera.
- Quem?, querido, não há ninguém aqui.
Revin dá os últimos suspiros.

Thursday, April 18, 2013

MORTE SA (da série Tudo Conto)


São vários os grupos vivendo na clandestinidade absoluta, inclusive nós. Falamos de nós mesmos, depois lançamos campanhas desestabilizantes das crenças, fazemo-las passar por boataria e conspirações infundadas. De fato, criamos tantas versões que as pessoas ficam perdidinhas.
Bom, para começar, cobramos caro.
US$ 200 milhões de cada um.
Quem pode pagar pague, quem não pode fica de fora, sem qualquer remorso ou qualquer chance de contestação. Não pode haver porque arruinaria o negócio todo. De nossa parte somos os Homens de Pedro.
Restam-lhes bilhões depois de nos pagarem esse valor. Não somos ambiciosos e as despesas são muitas. Criar todo um cenário de falsa morte é complicado.
Vejam o caso de Reza.
Ele herdou inicialmente do pai, que também se chamava Reza. Era o Xainxá da Pérsia. O fato é que ele não contava com a intervenção de outros poderes, que também nos interessa desestabilizar. Eles moveram seu títere, o aiatolá Khomeini e nós arranjamos a morte do Xá. O pai dele ficou no poder 16 anos e juntou um dinheirão. O Xá Mohamed, propriamente, ficou mais 48 anos e juntou dinheiro a rodo, tudo do povo. Por que teríamos remorso?
Foi preciso fazê-lo emagrecer a pulso, para dar crédito à doença, ao câncer. Quando eles se vêem diante da morte verdadeira lutam com todas as forças, nem que seja por uns anos a mais na obscuridade.
É patético.
Nem têm a hombridade de morrer com dignidade, rastejam por uma, duas, três décadas.
Já no caso de certo ditador foi diferente, aí já precisamos simular uma explosão bem à vista de todo mundo, arranjar um idiota para se passar por ele (a família foi muito bem paga). A quantidade de gente que precisa ser comprada não é brincadeira, não. Mesmo com as ameaças de morte as pessoas não se rendem, querem participar dos despojos.
Acontece assim: o perigo ronda, eles não sabem como sair da enrascada e nos procuram através de A ou B que já “morreu”.
Por vezes dão trabalho.
Sentem-se tão livres dos problemas que ficam se mostrando por aqui e por ali.
Veja o caso de Elvis.
Tivemos de engordá-lo, foi o contrário do Xá; ele ficou inchadão, injetamos drogas nele, depois o purificamos. 42 anos: iríamos matá-lo de câncer? Overdose, claro, como tantos outros.
Livre dos problemas ele começou a aparecer aqui e acolá, a mostrar-se, o idiota, até que formos obrigados e dar-lhe um “chega pra lá”, ameaçá-lo com a segunda morte, a verdadeira. Ele sossegou um pouco, mas o dano já estava feito e começou esse culto abestalhado.
Tivemos de dar conta de alguns mais afoitos que desejavam investigar.
Agora foi o Michael.
Quando a história dos garotos começou a chegar à barra das calças ele miou direitinho. São tempos mais difíceis, porque até divulgaram na Internet como ele seria hoje, tivemos de fazer cirurgia plástica, que custou caro. Enfim, daqueles 200 não sobra tanto assim para tanta dificuldade.
E, claro, não juntamos para nós, tudo que sobra vai sendo depositado em determinada conta na Suíça, o banqueiro mais tradicional.
Ao longo dos séculos já amealhamos bastante para nossa ordem, para quando tivermos de financiar a guerra do Fim do Mundo.
Ou eles ou nós, não tem meio termo.
E pode ter certeza de que para não desaparecermos faremos DE TUDO. Vocês, os recrutas, devem estar dispostos a dar suas vidas em anonimato.
Vão conhecer as listas de todos que ajudamos ao longo dos séculos, vão saber coisas extraordinárias, mas viverão escondidos, ninguém saberá de vocês, nem os parentes, nem os filhos, nem as esposas ou maridos, ninguém mesmo.