Diálogo nas Alturas
O policial federal parou o carro nos altos de Venda Nova dos Imigrantes, ali onde há aquele paredão da pedra que foi cortada para permitir a passagem dos veículos.
GUARDA – o senhor sabe que fez uma ultrapassagem indevida, né?
MOTORISTA – sei, seu guarda, peço desculpas, estava com pressa para chegar a casa. Erro meu.
GUARDA – e como podemos sanar esse erro?
MOTORISTA – não sei, o que o senhor sugere?
GUARDA – o senhor que tem de dizer.
MOTORISTA – não vou saber avançar, o senhor precisa me conduzir.
GUARDA – não digo nada, não posso dizer nada.
MOTORISTA – o que eu dissesse poderia ofender o senhor...
GUARDA – não, que é isso, pode dizer...
MOTORISTA – será que poderíamos...
GUARDA – o quê? Diga.
MOTORISTA – sei lá, chegar a um entendimento.
GUARDA – que tipo de entendimento?
MOTORISTA – diga o senhor.
GUARDA – não, o senhor que tem de dizer. Sabe que cometeu uma infração que rende pontos na carteira e tenho de fazer a multa.
MOTORISTA – talvez se o senhor perdoasse...
GUARDA – perdoasse...
MOTORISTA – é, perdoasse.
GUARDA – em troca de quê?
MOTORISTA – o senhor que tem de dizer.
GUARDA – eu, não, o senhor é que tem de falar, qual o tamanho da sua desculpa?
MOTORISTA – não posso dar uma desculpa muito grande, saí sem imaginar que fosse precisar de uma desculpa grande.
GUARDA – fala, fala, pelo menos fala, eu vou dizer se é pequena ou é aceitável.
QUANTO A ISSO DE ESTAR SENDO ULTRAPASSADA A LEI
MOTORISTA – tenho medo de o senhor se ofender.
GUARDA – pode dizer, se não me convencer eu digo.
MOTORISTA – fico até constrangido...
GUARDA – pode dizer, diga.
MOTORISTA – será pouco?
GUARDA (meio impaciente) – se o senhor não disser, não vou poder avaliar.
MOTORISTA (pegando a carteira de motorista, junto com a documentação do carro e estendendo) – eis meus documentos pro senhor olhar (dentro tinha uma nota de cinqüenta, que naquele tempo valia bem mais). Vai ver que está tudo correto.
GUARDA – bem, estou considerando que o senhor podia ter razão em sua pressa.
MOTORISTA – o senhor acha? Realmente eu precisava chegar a casa.
GUARDA – é, é compreensível. O senhor foi imprudente, mas se justifica, em razão das suas dificuldades. É uma boa desculpa.
MOTORISTA – obrigado por sua compreensão, bom dia, seu guarda.
Serra, segunda-feira, 17 de setembro de 2012.
José Augusto Gava.
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