Todo Tempo Empregado
- No domingo ele despertou, espreguiçou-se, esticou
os braços para o lado, embarrou na mulher, ela reclamou.
- Para com isso, bem, quero dormir.
- Dormir?
- É, hoje é seu dia de ir olhar as
crianças e brincar com elas. Faz um café gostoso.
Café, mulher?
Por puro reflexo ele levantou e foi
até o quarto, tomou um susto, duas meninas. Credo! Onde estou?
Resultado, como naquele filme ele
tinha mudado de corpo e morava em Tatuapé, em vez de seu apartamento de
solteiro na Paulista.
Puta merda!
E passou o dia todo naquela. Ficou
na dele, não falou um A. Errou ao fazer o café, a mulher reclamou, mas pelo
menos de noite tiveram um sexo bom. Até que não era vida das piores, tirando a
piora da qualidade de vida, mas se for para ficar assim, retomo as coisas,
daqui a pouco estou com tudo de novo, levo duas meninas lindas de lambuja e uma
esposa gostosa (mas desalinhada, isso é fácil, um banho de loja, dois ou três
anos no máximo).
No dia seguinte acordou na Favela do
Alemão, a mulher empurrou ele da cama, ele caiu no chão.
- Vai trabalhar, nego.
Aqui tá um pouco pior, mas seis ou
sete anos tô lá, só não vou traficar, vou dar um jeito rapidinho. Um garoto
negro pulou no colo dele, lindinho, o menino. Olhou pra pele, negro: oito ou
dez anos, repensou. De noite aquela negona foi de arrebentar, maravilha, vou
ficar por aqui.
Na terça acordou no Morumbi.
Agora já era um executivo. Pior que
(melhor, né?) que ele se lembrava de tudo da outra vida, nem olhava o que fazia,
cumpria as tarefas com competência, de vez em quando buzuiava (o palavreado das
outras vidas vinha junto) pros lados, se alguém olhasse também ele desviava os
olhos. A mulher era elegante, mas vivia com enxaqueca, de modo que nessa noite
não teve, ele teve que se virar, foi atrás da amante, voltou ao raiar do dia,
mal se jogou na cama já acordou na outra vida.
Na quarta era nordestino do sertão
cearense, cinco filhos, teve de ir pra roça, pegou um monte de calos nas mãos,
comeu a friinha, jabá com farinha e um ovo, nunca tinha comido um ovo tão bom,
na hora de dormir a mulher falou que tava fértil, amargou outra noite sem,
lembrou-se da amante do dia anterior.
Na quinta foi ao Congresso, estava
sendo sabatinado por ter participado da cachoeira do Cachoeira, puta merda!
Procurou memorizar as contas dos paraísos fiscais, repetiu umas cinquenta
vezes, eram três. Vou visitar aquela família nordestina. A mulher estava
apavorada com o andar da carruagem e de medo da situação foi para a casa da mãe
com os meninos, deixou um bilhete sobre o encaminhamento do divórcio, metade
para ela. Há, há, há, o idiota vai perder os três paraísos e ainda vai ter de
dar metade do que sobrar pra mulher. Foi ao banco e transferiu o dinheiro quase
todo para a conta primitiva dele: “vou ajudar a das meninas e a da favela”.
Na sexta acordou em Vila Velha, ES,
foi trabalhar e de noite andar na Praia da Costa pra ver se pegava alguma
carinha bonita, chegou ao miolo da festa, pagou para todo mundo (não era
dinheiro dele, mesmo), ficou benquisto, as garotinhas gostaram, ficou de bem,
duas quiseram ir, ele dispensou uma.
No sábado foi para Xexeu,
Pernambuco, onde era maratimba, foi pro bar beber com a galera, a mulher ficou
cuidando das crianças. Se enturmou com uma ruça bunduda e o pessoal “ô, Manel,
vai devagar, cara, a Vilma não é flor que se cheire”. Não sei como, ela ficou
sabendo, ficou a seco de novo, mas de madrugada já tinha perdoado.
No domingo voltou para a vidinha de
sempre, que antes ele achava maravilhosa, mas agora parecia insossa pra
caramba.
Ficou pensando: “o mundo é
diversificado, cada um tem suas recompensas, não é só Avenida Paulista e São
Paulo”.
Serra, domingo, 08 de julho de 2012.
José Augusto Gava.
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