Wednesday, October 09, 2013

A Assinatura (da série Vale 100 Contos)

A Assinatura

Salim estava sentado, todo ansioso, diante do TV de 62 polegadas.
Estava no “jornal da noite”, horário nobre, o âncora falou:
- As autoridades não sabem a quem atribuir o atentado de hoje a tarde no Terminal Ferroviário Atman, no bairro hindu, que matou 250 pessoas e feriu mais de 1.500.
Salim ficou sem fala, estarrecido, olhos arregalados durante uns bons 10 minutos, até explodir em fúria, de pé.
- MOÇUL, MOÇUL!
- Que é, não precisa gritar.
- Preciso sim. Ouvi agora no noticiário que eles não sabem a quem creditar o atentado.
- Estávamos na cozinha.
Jamil, que tinha vindo junto, foi chamar os demais.
Chegam Rita e Eduard, além de Sanda e Ibn Tara.
Salim estava tentando se conter, ele fervia, tentou se acalmar, mas não deu.
- Falaram na televisão que os agentes do governo não conseguiram atribuir autoria ao atentado. Será que estou ficando doido? Estou sonhando, tendo algum pesadelo? Vocês ouviram que não conseguiram identificar os autores?
Estavam todos de cabeça baixa, constrangidíssimos.
- VOCÊS COLOCARAM A ASSINATURA?
Mais silêncio.
- VOCÊS NÃO COLOCARAM?
As pessoas queriam sumir no solo.
JAMIL – foi a pressa, Salim, a confusão.
- A confusão é a merda. O alvo é o país, mas quem mandou a flecha? Agora vai ser o “império árabe” contra o país e não o grupo, eles não vão saber quem foi. Pode ter sido o Irã, a Argélia, a Síria, o Egito, O Reino, o Quirguistão, o Afeganistão, o Paquistão, o Cacetão, o Caralhão, pode ter sido qualquer um, seus penicos.
RITA – calma, Salim, não fique nervoso, olha a pressão.
- Olha a pressão, o cú, queria explodir eu mesmo, Alá, o misericordioso está me olhando, se não sou competente para uma tarefinha dessas, como vou entrar no Céu?
EDUARD – Salim, você lembra que quando estávamos para colocar os artefatos houve perseguição? Foi aquilo, quem iria se lembrar da assinatura?
- Assim não dá, assim não dá, dois anos pensando, seis meses treinando os mínimos gestos, eu vou enlouquecer, alguém me jogue lá no pé do prédio.
Faz que vai se jogar, é segurado.
JAMIL – não faz isso, Salim, você é importante pro movimento.
- Que movimento? Vocês estragaram tudo.
EDUARD – lembrando agora, não foi você que ficou de colocar a assinatura?
JAMIL (pensando, lembrando) – é mesmo, Salim, foi você, você até disse que era tão importante que você mesmo queria colocar, não foi, gente?
OS OUTROS – foi, sim.
RITA – até disse que isso nos projetaria e os outros líderes iriam te respeitar (foi naquele dia na cama, lembra?)
- Eu?
OS OUTROS – sim, você mesmo.
- Eu?
EDUARD – é, você mesmo, não adianta ficar se repetindo.
- Bem, gente, vamos ter de planejar outro, desta vez bem grande, pelo menos 1.000 mortos.
Serra, terça-feira, 02 de julho de 2013.
José Augusto Gava.

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