A Casa de Dona Jacinta
Havia uma reunião na casa dela, dona Jacinta recebia a todas e a todos, a umas e uns recebia bem e outras e outros nem tanto.
Rugas foi a primeira a chegar, aos 35.
- Nossa, Ribamar, estou com rugas em volta dos olhos.
Dona Jacinta se acostumou com a intrusa, que chegou e não foi mais embora, um constrangimento, passou a usar maquiagem, por vezes óculos escuros.
Depois foi Menopausa, chata que achatava tudo, um horror!
- Se alguém tivesse me avisado eu teria aproveitado mais, Ribamar!
Isso foi aos 49, a idiota provocou muitos dramas, calores, tremores, terrores, afastamento.
Depois foi Dores, das Dores, uma família imensa que se pendurou nela com força, acabou com a raça dela: 52. Ela começou a olhar as pessoas na rua: aquele lá tá com quê? E aquela? Todo mundo depois dos 50 tá fudido.
Artrite veio com tudo, ai.
Enfim, toda a família das Dores, que não eram poucas.
Já que tinha vindo Rugas, ela chamou as irmãs pesadonas, Pelancas, o neto vivia dizendo, o danadinho: “você tá cheia das pelancas”. Ela ria, a praguinha foi na ferida.
Depois veio o Encanecimento, os cabelos brancos. Pelo menos as mulheres não envelhecem, ficam louras. Ou ruivas. Mas os cabelos começaram a cair em virtude dos venenos químicos na tintura.
Aos 58 chegaram Desmaios, Ribamar levou-a aos hospitais.
Ribamar morreu aos 65, ela tinha 61.
Depois chegou Fraqueza e Moleza, as deprimentes irmãs.
Ela aposentou, jogava Free Cell todo dia, com elas instaladas na casa.
Ela foi ao médico quando Marcas apareceram e o dermatologista disse - cruel o bandido -, “são as marcas da senilidade”.
Quando tinha 68 ela reuniu os condôminos para uma festa de despedida.
- Quem estamos esperando?
- A Morte. Ela tarda, mas não falha.
Serra, quarta-feira, 26 de junho de 2013.
José Augusto Gava.
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