A Fila dos Mortos
O balcão só tinha um atendente e em compensação a fila era enorme, gigantesca mesmo, com mais de 100 candidatos, fora os cúmplices e acólitos. Nisso, até que seria pouco, mas a questão era o chamado das testemunhas acusatórias de todos os ditadores e demais “grandes assassinos da história”. Milhares de anos, uns tinham matado 10 milhões, outros 40 milhões, sem falar nas epidemias, que já era outra questão. Aqui se tratava exclusivamente de “coisas horríveis”, as 100 piores atrocidades, selvagerias, crueldades.
Só coisa braba mesmo.
O objetivo não era ajudar ninguém, de qualquer modo, como nos bancos, daí a incompatibilidade total entre o único atendendo (surdo, ainda por cima; tendo diabetes, tinha de ir urinar de hora em hora). Ademais, sendo funcionário público, o atendimento era das 10 às 16, segunda a sexta. Chamava um, pedia identificações, credenciais, aí ia chamando as testemunhas: só Gêngis Kahn tinha mais de 40 milhões.
Vinha um: foi ele?
UM – foi.
Chamava outro, aquela lentidão.
Iam começar a atender o terceiro, o próprio Mao.
Sem falar que de vez em quanto alguém se esmerava e passava na frente, entrava no meio da fila ou mais na frente ou mais atrás.
Lá de trás veio um velho apoiado em muleta, roupa de general, sei lá o quê, um desconhecido, um Zé Mané, um qualquer, um arrivista pouco produtivo, cheio de ares, veio batendo a bengala com força, chutando pedras invisíveis.
- Bom dia, o que o senhor quer?
- Quero ser atendido.
- O senhor vai ser.
- É, mas quando?
- Quando chegar a hora.
- Mas quando vai chegar a hora?
- Aí já não sei, pode demorar um pouco.
- Quanto é pouco?
- Não dá pra estimar. Sei lá, toda essa espera é parte da tortura, depende dos trâmites e das ordens de cima, uma vez parece que vai acelerar, depois desacelera, pára, tudo vem de cima, do chefão.
- Faz uma estimativa.
- Não dá, é inútil. O senhor tem de voltar lá pra trás.
- Não vou não, quero ser atendido logo.
O atendente ficou brabo.
- Atendido logo, o caramba! O senhor vai voltar lá pra trás e ficar caladinho, senão chamo os guardas. O senhor será torturado.
- Eu quero, eu quero.
- A tortura é TORTURA, não é como o senhor espera.
- Eu quero, eu quero, nunca fui torturado. Eu quero, eu quero.
Chega a Guarda do Cão cuspindo fogo, cascos dos cavalos soltando lava, o chão derretia, era só eletrochoque pra cima, eletro-borrachada.
- Que é que tá pegando?
- Seu guarda, é esse homem aqui, o Augusto, ele tá pra lá de 100 nas colocações, quer ser atendido logo. Matou poucos, menos de 300 mil, quer passar na frente.
- Quero ir pro fogo logo, quero ser torturado.
- Quem é?
- Pinochet.
- Nunca ouvi falar. De onde é?
- Do Chile, eu acho. O senhor é do Chile?
- Sou.
- Eficácia pouca, de vizinhos da Tríplice Aliança morreram 480 mil, só pro senhor ter ideia. E só os soldados, sem contar os civis.
GUARDA (truculento) – desafasta, vamos desaglomerar, dispersa, gente, vamos tocando, isso aqui não é motivo de curiosidade, vamos voltando pra fila, ordem aqui neste inferno.
Vai empurrando o Augusto Pinochet sem o mínimo de consideração, procê ver como tudo é relativo. O Augusto era mau, mas tinha gente pior. Ele iria sofrer muito antes de ser admitido no verdadeiro sofrimento.
Serra, sexta-feira, 09 de agosto de 2013.
José Augusto Gava.
No comments:
Post a Comment