Wednesday, October 09, 2013

A Marcha das Convicções (da série Vale 100 Contos)

A Marcha das Convicções

Nesses tempos em que 2,0 milhões (em termos científicos, de 1,5 a 2,5 milhões, qualquer coisa nessa faixa) de egípcios foram à rua numa nova manifestação para depor o atual presidente apenas um ano depois de depor o anterior, e quando os turcos foram à rua dizer que não desejam ser árabes, querem ser europeus, os brasileiros também se puseram em campo para fazer reclamações depois de 500 anos de desnotícias, sem quaisquer reclamações quanto aos governantes, exceto aquela coisa dirigida das Dirigidas Já e dos caras pintadas anti-Collor.
Portanto, lá iam as Convicções brasileiras em marcha no logradouro Brasil. À frente iam as Confianças, crédulas, crédulas, acreditavam em tudo, as pobres iam saltitando, algumas pulavam corda, outras apenas riam confiantemente, peito aberto, sem sutiã, mostrando tudo, esperando ser fotografadas para ser capa de revista e ganhar bastante para comprar apartamento, pelo menos posar para Sexy, quem sabe Playboy.
Mais na frente ainda iam as Fés denodadamente, totalmente confiantes, não havia qualquer dúvida, elas acreditavam, “é tudo verdade”.
Entre as Confianças e as Convicções iam as Persuasões tentando convencer a platéia de que “tudo vai dar certo”, Lulambão vai devolver o dinheiro, os bandidos do PT vão ser presos, a Dilmandona não está conspirando, o Congresso vai agir certo. O pessoal apupava, zombava mesmo, caçoava, tripudiava, jogava decepções podres, desapontamentos contaminados, desenganos putrefatos.
 As Dignidades Ofendidas eram as mascotes do grupão. Havia-as grandes e pequenas, as jovens indignidades expostas, o povo brasileiro já estava acostumado, nem ligava mais.
As Tropas de Choque governamentais eram as Indiferenças. Como tinham recebido uma pauta do Comandante eram Indiferenças Pautadas que os governantes as usavam muito para reprimir os levantes populares, antes desses se manifestarem: a esperança toda era impedir o primeiro confronto. Depois dele degenerava e entrava em cena o grupo de brucutus Quebra-mas-não-Mata, treinados a usar cassetetes de última geração com circuito de densidade adaptativo a cada tipo de corpo.
O grupo em marcha levava sua própria segurança, Diálogos, gente mansa que gostava de conversar e era a primeira a apanhar.
Por trás de todos iam as Certezas, divididas em Certezas sem Hostilização e Certezas Absolutas, essas não queriam papo, eram “queixo duro”, ninguém desejavam que entrassem em cena, porque daí para frente não tinha colóquio. No miolo das Certezas iam as Suspeitas, por exemplo, a Suspeita de que os ricos estão muito ricos no Brasil.
Alguém murmurou “está fedendo por aqui, não fui eu”. Foi justo quando alguém gritou: “tem alguém fazendo merda no Brasil”. Não há Confiança nem Convicção que resista a algo assim.
Serra, segunda-feira, 22 de julho de 2013.
José Augusto Gava.

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